.Cultura

09/11/2012 · 10:52
Ele é Jimi Joe
Entrevista com o coordenador de conteúdo da Unisinos FM revela um pouco da vida de uma das figuras mais conhecidas do rock gaúcho
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Texto: Pablo Furlanetto
Imagens: Christiaan van Hattem

Jimi Joe é uma marca. A prova disso é que o nome de batismo dele já nem existe mais. Jimi também é outras coisas. Está entre as figuras mais importantes do rock gaúcho. É jornalista experiente, com direito à entrevista com o camaleão David Bowie. É tradutor, e dos bons. Tanto que traduziu o primeiro gibi do Batman. E é radialista, o coordenador de conteúdo da Unisinos FM 103.3.

Nas próximas linhas, você vai conhecer um pouco mais de Jimi Joe. E vai se surpreender com a bagagem que esse sujeito, natural de Arroio Grande, possui.

Boa leitura.
 
J.U - Você é músico, radialista e jornalista. Fale um pouco de cada profissão, onde começou...
Jimi - Ah, sou tradutor também. No Brasil o cara tem que fazer um pouco de tudo. Bom, primeiro veio a música. Por volta de 72 eu comecei a tocar o violão que minha irmã tinha e acabei compondo algumas coisas. Comecei a tocar em palco em 75. Também em janeiro desse ano, passei na UFRGS em Composição e Regência. Só que daí eu fui ver o currículo e eram nove anos de curso e achei que não dava. Tentei Jornalismo na Famecos no meio daquele ano. Eu fazia um cursinho e lembro que chegou por maio, junho e o meu professor de Biologia falou: “Olha, temos uma promoção, onde quem fizer PUC no inverno e passar vai receber de volta o último mês de mensalidade”. Então fiz vestibular e passei na Famecos. Fiquei no Jornalismo e a ironia é que acabei levando nove anos para me formar em um curso de quatro. Se seguisse a lógica, eu levaria 18 anos para me formar na UFRGS! Em 76, eu arrumei o primeiro emprego na área. Comecei na Farroupilha como redator. E de 76 em diante começam a correr juntos, Jornalismo e música.

J.U - Em quais lugares tu trabalhaste?
Jimi - Eu comecei na Farroupilha como redator. Em 78, fui para o Diário de Notícias e, em junho do mesmo ano, comecei na Caldas Júnior. Na época o Wanderley Soares, que hoje está no O Sul, era editor de polícia e inventou a Central de Reportagem Policial, que reunia repórteres que faziam matérias para os três jornais da Caldas, o Correio do Povo, a Folha da Manhã e a Folha da Tarde. Eles juntaram uma gurizada mais nova, sem os vícios de repórter policial, para criar um texto diferente, moderninho, para a Folha da Manhã. Depois, os redatores do Correio e da Folha da Tarde adaptavam para o estilo deles. Foi uma experiência muito interessante. Saí da Folha da Manhã em 80, fiquei um tempo sem trabalhar e, depois, me chamaram na Zero Hora para trabalhar com o mesmo Wanderley na polícia. Depois, voltei a fazer rádio em 86 na Ipanema FM. Após um tempo, acabei aceitando a proposta de um jornal que estava começando em Porto Alegre, o Diário do Sul, do Grupo Gazeta Mercantil. Fiquei lá uns três meses, na área de música e cultura, e acabei voltando para a Ipanema, por pedido do pessoal da rádio. Em 89 fui para São Paulo. Bom, nesse meio tempo comecei a traduzir livros para a L&PM, porque eu era amigo do Peninha Bueno (editor). A história começou de um jeito meio peculiar, porque o tradutor de quadrinhos oficial era o Marco Poli, mas ele estava viajando para os Estados Unidos e o Peninha precisava de alguém para traduzir o primeiro Batman, de capa vermelha, uma das primeiras histórias dele. Aí ele me ligou pedindo se eu não queria fazer, e eu “bah, quero total, né!”. Era uma alegria só traduzir o Bob Kane. Passei a traduzir vários livros para a L&PM.



J.U - Mas tu estudaste inglês?
Jimi - Não, eu aprendi autodidata, traduzindo letras dos Beatles e dos Rolling Stones desde os 13 anos. No tempo do Ginásio, lembro que levava na aula o encarte do álbum branco dos Beatles e pedia para a professora de inglês me ajudar a traduzir e ela achava as letras estranhas. Eu dizia “é, eles não são muito certos”. Fui lendo livros com o dicionário do lado, às vezes sem entender, aprendendo na marra até pegar a prática da coisa. Tudo eu fazia paralelo ao trabalho na Ipanema. Desde 84 eu tinha uma banda, a Atahualpa Y Us Panquis, que era o Carlos Eduardo Miranda (teclado), hoje jurado do programa Ídolos do SBT; o Castor Daudt (bateria), que hoje está em Alagoas; e o Flávio Santos (baixo), o Flu. Era pra ser um grupo de punk rock, mas íamos muito além. E era uma diversão, porque dinheiro não dava. Aí em 89, o Peninha saiu da L&PM e foi trabalhar no jornal Estadão, em São Paulo. Ele fazia o Caderno Dois, onde o editor era o José Onofre, gaúcho de Bagé, baita jornalista das antigas. Eu estava de saco cheio do meu trabalho e com problemas pessoais e lembro que peguei o telefone e liguei pro Peninha, para bater um papo, desabafar. Ele perguntou como estavam as coisas e respondi que não aguentava mais. Então, o Peninha deu a ideia de eu tirar férias e ir para lá. Fui para São Paulo e trabalhei por um mês como freelancer do Estadão. Quando passou o período, o José Onofre me chamou e disse que gostou do meu trabalho. Assim, trabalhei por quatro anos no Estadão como editor de música. Nesse período, também fui editor de música da revista Playboy e escrevi para vários jornais. Entrevistei um monte de gente que achava bacana, como o David Bowie. Bom, em 93 o Estadão trocou de editoria e saí do jornal. Na mesma época, eu estava participando da fase final de seleção para trabalhar na BBC em Londres. Faltava apenas a última entrevista e, aí, fiquei na dúvida sobre o que fazer. Conclui que, se eu passasse, iria pra Londres. Caso contrário, voltaria para casa. Como não rolou na BBC, voltei para a Ipanema e fiquei até 95. Naquele ano deu uma crise na rádio e eu acabei saindo. Fui para a emissora que viria a ser a Pop Rock, onde fiquei uns três anos. Depois, fui para a Gazeta Mercantil e trabalhei na área de cultura. Depois me convidaram para ser assessor de imprensa do Sinpro (Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS). Era um trabalho legal, que pagava bem, mas não era o que eu estava acostumado a fazer e comecei a me incomodar. Aí, por convite de uma amiga, a Lúcia Brito, fui ajudar a produzir a revista “E Aí?”, do Grupo RBS, que era um guia cultural semanal. Depois, trabalhei também na revista da Atlântida. Isso em 2003.

J.U - E como ficou a música nesse período?
Jimi - Nunca parou. Em 93, o pessoal da Ipanema montou uma banda para comemorar os 10 anos da rádio. Os locutores eram os vocalistas. O projeto ficou tão legal, que resolvemos mantê-lo, sem os locutores, claro. Surgia Os Daltons, que era cover de Folk Rock e Country rock. Em 2001, comecei a tocar guitarra com o Wander Wildner e estou com ele há mais de dez anos.

J.U - Quando finalmente tu começas a trabalhar na Unisinos FM, Jimi?
Jimi - No começo de 2005 o Isaias Porto, que era gerente de Programação e Conteúdo da rádio, me chamou para ser redator e produtor. Eu aceitei. Em 2006, o Porto acabou saindo e o Alexandre Kieling, diretor da TV Unisinos e da Unisinos FM na época, me perguntou se eu não queria ficar de coordenador de conteúdo e, novamente, eu disse que sim. E estou aqui até hoje. O rádio sempre marcou muito a minha vida, é o meu veículo favorito.

J.U - Jimi, tu tens mais de 30 anos de carreira. Já tocou com músicos importantes da cena gaúcha. Pela bagagem que tens, como você vê a cena musical atual do Rio Grande do Sul?
Jimi - Eu ouço desde o final dos anos 60 que o rock gaúcho acabou. A primeira banda gaúcha que me deixou enlouquecido foi a Liverpool, por ser a única daqui que fazia tropicalismo. Desde então, o rock gaúcho dá uma sumida e volta. Mas, desde os anos 80, ele nunca mais saiu da parada. Nesses anos de Unisinos FM, temos bem presente que não tem mais uma ruptura. Recebemos toda a semana bandas novas. O curso de Produção Fonográfica é uma usina de bandas. Pelos menos umas sete dessa graduação estão por aí tocando, e bem. O rock foi evoluindo e hoje é uma salada. Um caldeirão cada vez melhor.



J.U - Na Unisinos FM tu tentas implantar um pouco das tuas ideias e gostos musicais?
Jimi - Eu coloco algumas coisas que acho legais, mas a gente procura respeitar a programação, que é feita pelo Luís Porsche. Coloco no ar quando tem aniversário de uma banda, alguma coisa nova que está saindo ou um pedindo de ouvinte. Porém, não imponho nada.

J.U - E qual é a filosofia da Unisinos FM?
Jimi - A rádio é muito peculiar, porque é educativa, uma college radio real. Só que desde o começo dela, eu nem estava aqui, se decidiu que ela seria uma emissora com viés diferenciado, que iria procurar um público jovem, com a programação musical mais voltada para o rock. No começo era mais blues e rock antigo e, a partir de 2003, houve uma mudança de direção e ela começa a incorporar o rock contemporâneo, sem esquecer as coisas antigas. Quando eu assumi a coordenação, falei com o Porsche para ampliar mais ainda o leque, de tentar colocar MPB nova e antiga, música erudita. É uma diversidade musical.

J.U - A Unisinos FM sempre foi sinônimo de música de qualidade. E consegue manter ainda isso, indo na contramão das demais rádios. Por que tu achas que a programação das FMs mudou tanto?
Jimi - Hoje todos estão tentando buscar a sustentabilidade. Ao mesmo tempo em que nós podemos fazer coisa experimentais, com a participação de alunos do curso de Comunicação, temos uma certa limitação na questão financeira. Como somos uma rádio educativa, essa concessão não nos permite ter anúncio de varejão, que tem preço. Então é complicado arrumar apoiadores. É uma faca de dois gumes que corta bem nos dois lados. Temos a liberdade de fazer coisas bacanas e estamos tentando, cada vez mais, colocar apoiadores que topem ter apenas o nome anunciado. E isso nos diferencia das rádios comerciais. A Unisinos FM acabou virando a bola da vez para quem gosta de música diferenciada.

J.U - Jimi, no aniversário de 17 anos da rádio o que vocês vão celebrar?
Jimi - Vamos celebrar esse tempo todo no ar. São 17 anos de brigas, de batalhas, de ideologia cultural. A Unisinos FM tem música com forte conteúdo jornalístico. Juntamos o conteúdo musical para todas as idades com uma programação informativa. Outra coisa gratificante que temos aqui é o trabalho com os estagiários. É muito legal ver o cara chegar sem saber muita coisa, crescer, aprender a falar em rádio e, daqui a pouco, ser chamado pela Gaúcha, Guaíba ou pelo mercado em geral.

J.U - E para os próximos anos, quais os objetivos da Unisinos FM?
Jimi - A ideia é continuar a fazer o que já estamos realizando e incrementar, cada vez mais, a informação. Tentar tocar em frente com o máximo de informação e conteúdo.

J.U - E os objetivos do Jimi?
Jimi - Cara, acho que é continuar fazendo rádio, que é uma cachaça. Desde comecei, não consigo mais parar. Fui para jornal e outros meios e acabei voltando. Eu faço hemodiálise há nove anos e não posso mais beber, então minha cachaça é o rádio. Espero que ela dure muito anos. A outra cachaça é a música, que eu nunca vou parar de fazer, porque é terapia. Quanto estou no palco, as pessoas pagam para ouvir os meus problemas e, assim, estou poupando uns R$ 300 de terapeuta.


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