.Cultura

12/11/2012 · 16:18
Cidades cercadas de pobreza
O último conferencista do Fronteiras do Pensamento, Mia Couto, falou, em entrevista, sobre os problemas sociais e ambientais
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Texto: Pablo Furlanetto
Imagens: Pablo Furlanetto

A última conferência da edição 2012 do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, um dos eventos intelectuais mais importantes do estado, conta com a participação do moçambicano Mia Couto. Jornalista, romancista e biólogo, Couto palestra esta noite (12/11), às 19h30, no Salão de Atos da UFRGS (av. Paulo Gama, 110, Porto Alegre).

O conferencista recebeu a equipe da Unisinos na manhã de hoje no Hotel Mercure Moinhos de Vento, onde ele está hospedado. Mia concedeu duas entrevistas. A primeira, com foco na linguagem, sua variação, heterogeneidade variabilidade e emprego, foi realizada pela professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Unisinos, Ana Maria Stahl Zilles. Depois, o J.U fez perguntas relacionadas às questões ambientais.

Confira abaixo o que o biólogo Mia Couto nos respondeu.

J.U - Sua carreira como escritor é muito reconhecida, bem como suas ações como jornalista e biólogo. Gostaria de falar sobre esta última. Em Moçambique você dirige a Impacto, empresa especializada em projetos e estudos ambientais. Como é a legislação ambiental em Moçambique? Existe um controle por parte do governo, principalmente nas reservas?
Mia - Existe lei, mas não existe controle. Em Moçambique temos uma legislação muito moderna. Há cerca de 10 anos nossas leis foram feitas em harmonia com os modelos mais avançados da Europa. Os países nórdicos nos ajudaram a criar esse quadro legal, mas Moçambique não tem capacidade nenhuma para construir um país. Ele está entre os 10 países mais pobres do mundo, apesar de ter um bom índice de crescimento agora. Tudo que é instituição, intervenção de ordem prática, recursos humanos e financeiros estão ainda sendo construídos.



J.U - Como você vê esse caminho que a humanidade está trilhando, com progresso acelerado sem os devidos cuidados com o meio ambiente?
Mia - Não sei se a humanidade está fazendo esse progresso acelerado, se nós podemos dizer que toda a humanidade está no mesmo caminho. Existem vários. Tem a humanidade que não está em progresso nenhum e o pouco progresso, que produz mais ricos do que riqueza. Acho que a pergunta tem que ser reformulada. Temos várias coisas que estão acontecendo ao mesmo tempo no mundo e, infelizmente, a que cria a pobreza acelerada ainda é dominante. Eu vejo o futuro não com a cidade que é desenhada, com uma visão futurista, mas vejo as cidades cercadas de periferia pobre. Esse é o futuro que eu não gostaria, mas é aquilo que prevejo para daqui 40, 50 anos. Ou nós reformulamos tudo.

J.U - Ainda existem muitos mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais? Alguma em destaque?
Mia – Existe, por exemplo, a ideia de que nós não somos os únicos que têm alma. Em Moçambique, há várias culturas que olham de maneira diferente a relação entre o que é humano e o que é natural. Nessa separação entre humano e não-humano, os animais podem ter alma. Nós não somos os únicos que temos uma relação com os deuses. Isso para mim é muito bom, do ponto de vista que sugere que nós não somos os únicos, não somos o centro, não somos o topo, nos coloca numa situação de igualdade com o resto dos nossos companheiros de existência, os bichos e a natureza.

J.U - Você acha que a questão do aquecimento global tem volta?
Mia - Eu nem sei se ele existe tanto como dizem. Quase certamente ele existe, mas presta serviço a certa construção de uma ideia apocalíptica do mundo, como se fosse um fenômeno que já tivéssemos certeza, mas não temos, não sabemos o que vai acontecer. Quando dizemos o aquecimento global, parece que ele não tem responsabilidades. Nós estamos fazendo coisas que precisam ser pensadas. E não é naquela coisa de desligar a luz quando sair, fazer economia, escolher o produto tal ao invés de tal. Essa não é a solução. A solução é pensar os modos da nossa civilização, essa economia que é baseada exclusivamente no recurso energético. Essas são as grandes soluções. As pequenas coisas não vão resolver.


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