.Entrevista

07/09/2013 · 20:20
Independência ou morte
Quase duzentos anos após o grito às margens do Ipiranga, o 7 de setembro ainda provoca comoção?
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Texto: Michelli Machado
Imagens: Divulgação


O dia 7 de setembro é uma data emblemática. Em 2013 comemoramos 191 anos da independência do Brasil e o evento continua gerando questionamentos. Somos mesmo independentes? O que temos a comemorar? Que história aprendemos e que história queremos contar? Essas indagações possuem diversas respostas, que são reflexo da nossa vivência pessoal e do conhecimento cultural e político de cada um.

A historiadora e professora da Unisinos, Eliane Fleck, respondeu algumas questões sobre o tema, que continua atual. A realidade política contemporânea nos faz pensar sobre o quanto ainda nos comportamos como colônia, em comportamento, atitude e dependência econômica. A representação que recebemos das figuras históricas, a partir de modelos prontos é outro eixo sob o qual podemos refletir.

Que interessante seria recontextualizar o cenário em que esses personagens viveram e entender como de fato eram suas personalidades e os motivos de suas decisões. A partir de um mergulho nos registros históricos poderíamos aproximar passado e presente e entender que o 7 de setembro é mais que um feriado, é um processo político que culminou na independência do país. Compreender a nação sonhada e quem somos é o primeiro passo para construir o Brasil que queremos, e transformar o 7 de setembro em uma data festiva.


JU: Podemos dizer que o Brasil é completamente independente ou existe uma independência ainda inacabada? Por quê?
Eliane Fleck: A Independência política do Brasil – de sua metrópole, Portugal – resultou de um longo processo que se iniciou em 1808, com a chegada da Família real portuguesa, e que foi concluído em 1831, com a Abdicação de D. Pedro I. Simbolicamente, ela se deu em 7 de setembro de 1822, mas uma série de eventos que antecederam esta data também devem ser considerados para a compreensão do processo e, dentre eles, cabe destacar os Manifestos de agosto de 1822. O reconhecimento externo da Independência, em especial, da ex-metrópole, Portugal, se deu somente em 1825, um ano após a outorga da Constituição de 1824 por D. Pedro I. Portanto, o Brasil realizou o seu processo de emancipação política nas primeiras décadas do século XIX, assim como vários outros países da América Latina que surgiram em decorrência de processos independentistas no mesmo período. Considerar a Independência como inacabada decorre de uma abordagem que busca analisar a emancipação da colônia de sua metrópole pelo viés da teoria da dependência, e que, comumente e, em termos historiográficos, acaba reduzindo a Independência a uma simples transferência da "órbita" de Portugal para a da Inglaterra, abordagem que desconsidera o processo de construção e de consolidação interna da Independência.

JU: Qual a importância da figura de D. Pedro I no processo de independência do Brasil?
Eliane Fleck: A importância atribuída a D. Pedro I no processo de Independência do Brasil está condicionada às abordagens historiográficas que o evento já recebeu. Se no século XIX, procurou-se exaltar a figura de D. Pedro, como o herói e como aquele que promoveu - por sua ação - a Independência, abordagem que estava perfeitamente em sintonia com os cânones de uma historiografia romântica, no século XX, esta visão heroicizada de D. Pedro sofreu contestação, na medida em que outros personagens ou até grupos sociais envolvidos (e interessados na emancipação política) foram considerados fundamentais para o êxito da Independência e para o reconhecimento externo do novo Estado que se estruturou com base na Constituição de 1824.

JU: Por que a história da independência é, muitas vezes, apresentada de forma pouco aprofundada pelo ensino tradicional?
Eliane Fleck: Acredito que isto seja uma decorrência de vários fatores e que abarcam desde a obrigatoriedade de demonstrações de patriotismo, sobretudo durante os anos do regime civil-militar – e que levaram a uma negação e a um sentimento de rejeição em relação a tudo que lembrasse a Pátria e o governo brasileiro, até a ridicularização (através de séries televisivas e do cinema brasileiro) dos personagens da nossa história, em especial, de D. João VI e de D. Pedro I, comumente retratados como poucos afeitos à política e atributos – intelectuais ou físicos – que fazem a alegria dos caricaturistas. Além disso, os livros didáticos – apesar de uma significativa renovação das abordagens nos últimos anos – ainda enfocam

JU: Como a data comemorativa do 7 de setembro pode servir para refletirmos sobre a história e a política no Brasil?
Eliane Fleck: Acho que a data serve, sim, para uma reflexão sobre como se constrói a história de um país, quais as seleções de eventos e/ou personagens que a historiografia ou os próprios governos fizeram, ao longo dos séculos, e sobre as intenções que tiveram em dar destaque a uns ou em invisibilizar outros. Basta fazer uma pesquisa nas ruas das cidades brasileiras e junto a um público bastante diferenciado para verificar que os brasileiros muito pouco ou quase nada sabem sobre sua história. Assim, me parece que tanto um 22 de abril e um 7 de setembro, quanto um 15 de novembro servem para repensarmos o que fizeram e o que fizemos – e aí incluo os historiadores e os professores – com a história do nosso país.


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