A frase é do professor Fernando Haas, autor de estudo que poderá auxiliar o desenvolvimento da fusão nuclear e também a criação de microchips com maior velocidade de processamento. Há dois anos, ele iniciou no câmpus da Unisinos a pesquisa sobre plasma quântico, à qual dá prosseguimento hoje na Universidade do Vale do Ruhr, na Alemanha. Um dos raros brasileiros a se dedicar ao tema, Haas explica nesta entrevista ao JU Online os benefícios de seu projeto para as ciências. Recuperando-se de duas semanas de internação em um hospital alemão, por conta de uma hérnia de disco, o cientista não perde o ânimo e afirma que a física, a matemática e a arte têm fortes conexões.
Quais os benefícios que sua pesquisa sobre plasma quântico vai trazer para a ciência?
Até o final da década de 60, havia certo entusiasmo em torno dos efeitos quânticos em plasmas, especialmente por parte dos cientistas russos. Mas as propostas originais conduziam a equações complicadas demais. Facilmente, nessas abordagens, chegava-se a equações ocupando três ou mais páginas - um bom passatempo para os dias de neve. No entanto, a maioria dos físicos de respeito dá um grande valor à estética, o que implica, por exemplo, preferir modelos que comuniquem mais que uma massa de símbolos quase no limite do ininteligível. O que nós fizemos foi propor algumas simplificações violentas, que permitem obter modelos matemáticos mais bonitos. A comunidade se interessou e há atualmente um ressurgimento da pesquisa com os plasmas quânticos. As razões para isso são a estética dos novos modelos e a crescente miniaturização em curso, na tecnologia de um modo geral. Não é demais dizer novamente: física, matemática e arte têm uma forte conexão. Quem não tem senso estético não pode ser físico teórico.
Na Alemanha, o senhor está dando prosseguimento a esse estudo?
Sim, basicamente tenho trabalhado com plasmas quânticos. Nas horas vagas, com matemática (sistemas dinâmicos) e tentando aprender novos temas. O que tem nos ocupado são tentativas de aprimorar nossos modelos bastante simplificados, incorporando efeitos ignorados de início, mas ainda preservando certa estética. É mais adequado ter modéstia e assumir que nossas teorias têm dificuldades, muitas vezes vergonhosas e inconfessáveis, e então tentar melhorar.
Qual é a relação de sua pesquisa com a nanotecnologia?
Temo que a expressão \"nanotecnologia\" termine por se amancebar, sendo aplicada indiscriminadamente a toda pesquisa que se relacione com o mundo do muito pequeno. De fato, como diz o nome, a nanotecnologia lida com sistemas que podem ser considerados muito pequenos para os padrões com os quais estamos acostumados no dia a dia. Por outro lado, normalmente, a física de plasma lida com sistemas onde a física clássica pode ser aplicada sem maiores sobressaltos. Esses sistemas, como as estrelas mais usuais, o vento solar, a ionosfera, a maioria dos plasmas de laboratório e assim por diante, não chegam a exibir condições tão extremas que exijam um tratamento não clássico. Para os plasmas quânticos, pelo contrário, se faz necessária uma descrição mais detalhada, devido a fatores como baixíssimas temperaturas, dimensões muito pequenas ou densidades extremas. Para resumir, os plasmas quânticos trabalham com o \"nano\", por se preocuparem com a estrutura básica da matéria. Não se trata, porém, de nanotecnologia, pelo que entendo do significado dessa expressão, o qual ainda não está de todo delimitado.
Em qual instituição o senhor está realizando pós-doutorado na Alemanha?
Na Universidade do Vale do Ruhr, em Bochum, no Departamento de Física Teórica. Quem me convidou foi o professor Padma Shukla, um indiano que está há muitos anos na Alemanha e é reconhecido como grande incentivador da ciência no terceiro mundo, por ajudar na carreira de alguns pesquisadores dos países subdesenvolvidos. Ele é um entusiasta pelos plasmas quânticos, muito mais do que eu inclusive. O Padma faz parte da Academia de Ciências da Suécia, que indica o prêmio Nobel.