.Entrevista

14/11/2013 · 16:52
15 de Novembro
O que ainda não foi dito sobre a Proclamação da República?
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Texto: Michelli Machado
Imagens: Divulgação

Quando já se passaram 124 anos da Proclamação da República, parece que tudo já foi dito. Será? Talvez a história seja contada sempre da mesma forma, sob o ponto de vista dos vencedores. Não sabemos como o Brasil seria se fossemos hoje governados por um imperador no lugar de um presidente, ninguém pode afirmar que seria melhor ou pior, mas podemos imaginar. Vamos aos fatos...

Em 1889, no dia 15 de novembro, o marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República Federativa do Brasil. Apesar de alguma insatisfação com o sistema monárquico, a proclamação da república não foi um manifesto popular ou um desejo do povo brasileiro. A mudança do tipo de governo no Brasil aconteceu a partir de um golpe militar, que fez uso do descontentamento geral com o gabinete do Visconde de Ouro Preto.

Muitas vezes a história tem sido contada como se a mudança de governo tivesse sido uma escolha dos brasileiros, e devido à unanimidade de ideias sobre o fim da monarquia, a transferência de poder teria se dado sem lutas ou sangue. Se essa fosse a única versão dos fatos, por que o imperador foi expulso de seu país? Por que foi banido como um criminoso, quando só deveria ter perdido o cargo de governante? Ele mesmo havia dito, mais de uma vez, que se não o quisessem como imperador, seria professor no Brasil, país que amava. Por que então foi expulso, já velho, no meio da noite, de sua terra natal? A resposta talvez esteja no medo, por parte dos militares, de uma reação popular em apoio ao imperador, ou mesmo ao regime monárquico. Talvez nossa república não tenha se construído a partir de um ato de bravura, mas de uma atitude oportunista dos militares. Pensando assim parece até outra história, não parece?

Para abordar o assunto de forma pontual e resolver o impasse de como o processo histórico se construiu, a professora e historiadora, Eliane Fleck, respondeu algumas questões sobre o tema. A realidade política contemporânea nos faz pensar sobre o quanto avançamos na história do país e de como recebemos modelos prontos sem refletir ou questionar a respeito de suas causas.




JU: Como aconteceu o processo de proclamação da república no Brasil?
Eliane Fleck: Foi durante o longo Segundo Reinado – período que se estendeu de 1841 a 1889 – que se deu a construção de um verdadeiro Estado Imperial. Uma das características do governo – daquele que alguns historiadores chamam de “o maior dos brasileiros” – foi o permanente rodízio no poder entre os políticos integrantes do Partido Liberal e do Conservador. Houve 36 gabinetes em 50 anos de governo, um a cada ano e três meses, em média. Os anos de 1880 foram marcados por evidentes sinais de crise do regime monárquico, pela difusão dos ideais republicanos e por um intenso debate político sobre questões como a abolição da escravidão e a separação da igreja do Estado.
Havia uma disposição afetiva e mental à ideia da república no Brasil nos anos finais do império, resultante da ampla difusão de uma cultura democrática, que acabaram por tornar o regime republicano uma necessidade histórica. Cabe relembrar que as origens do movimento no Brasil remontam às diversas manifestações de oposição nas províncias, especialmente na segunda metade do século XIX, que, pouco a pouco, foram minando as estruturas da monarquia. O crescente descontentamento resultou na união partidária, em 1868, entre os Liberais, recentemente excluídos do poder, e os Republicanos, que buscavam maior participação, culminando no manifesto republicano de 1870, que inaugurou a efetiva campanha republicana.

JU: Quais as diferenças da república esperada e a governo implantado no Brasil?

Eliane Fleck: Ao longo dos anos a propaganda republicana radical era defendida, sobretudo, por Lopes Trovão e Silva Jardim, dois propagandistas que se mostraram incansáveis em seus principais objetivos, o de derrubar a monarquia e instituir uma República que fosse genuinamente popular. Essa tendência, no entanto, entrou em choque com a ala evolucionista do movimento, que acabou vitoriosa em 15 de novembro de 1889. Com inexpressiva participação popular na deposição do último ministério imperial e sob o comando do exército, nascia a república, a 15 de novembro de 1889. Os primeiros anos que se seguiram à proclamação se caracterizaram por passos muito tímidos em direção à democracia, tendo prevalecido a tendência ao reformismo e à eliminação daqueles que pretendiam ampliar ou criar condições de igualdade entre cidadãos.
Mas que República foi esta proclamada em 1889? Que liberdade foi a que os brasileiros conquistaram após a derrubada do Império? Em artigo publicado, em 2011, Roberto Pompeu de Toledo fez referência a um livro que é hoje um clássico da literatura brasileira e a um personagem que não poupou críticas à República que não foi. Trata-se do romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.

A visão de Lima Barreto...

A obra – é importante ressaltar – passa-se no tempo do marechal Floriano Peixoto (1891-1894) e da Revolta da Armada, o movimento que precipitou uma guerra de seis meses na Baía de Guanabara entre os rebeldes da marinha e as forças do governo. Lima Barreto – assim como muitos outros de seu tempo – não poupou críticas aos militares, apresentando-os como o “Santo Ofício Republicano”, denunciando o “nefasto e hipócrita positivismo” e caracterizando a ideologia dos militares que proclamaram a república, “de um ‘pedantismo tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências”. O escritor era “mais um dos desencantados com a ‘República que não foi’, como se dizia na época – a dissipação da ideia de república num mar de intolerância, de desonestidade e de mistificação.” Qual terá sido a reação dos moradores de São Leopoldo à Lei Áurea que pôs fim à escravidão e à Proclamação da República? Quantas opiniões semelhantes a de Lima Barreto e quantas discordantes e sintonizadas com o discurso republicano circularam pelas casas de comércio e pelos salões dos casarões e instalados na Rua Grande dos primeiros anos do século XX? Estas são questões que ainda estão para serem desvendadas...

JU: Quais as principais mudanças que o regime político brasileiro sofreu quando passou de monarquia par república?
Eliane Fleck: A proclamação da república brasileira, ocorrida em 1889, estabeleceu novos projetos e perspectivas para as elites brasileiras: o Brasil deveria se tornar um país moderno, urbano e civilizado, tudo isso através do trabalho de especialistas nas áreas da medicina, da engenharia e da educação, entre outras. Cabe lembrar, que saíamos de uma sociedade de tipo escravista e iniciávamos o processo de construção de uma sociedade capitalista urbano-industrial. Buscava-se, de preferência, uma modernização “à europeia”. Para podermos competir no mercado internacional, “civilizar-se” era uma necessidade. Os espaços urbanos, os valores e os comportamentos da população deveriam ser “reformados”. A república trouxe consigo um novo modelo de cidadão, que deveria ser alcançado através da ação da medicina e dos especialistas. Os regramentos da moral burguesa desejavam mudanças que afastariam a grande massa de indivíduos que tinham uma vida mais humilde, sendo esses gradualmente exclusos do centro urbano para locais mais afastados dos olhos dos indivíduos de classe. Os anseios e objetivos da elite política brasileira, identificados com as palavras “modernidade”, “civilização” e “urbanização”, entre outras, também imprimiram suas marcas, suas características desde o início do período republicano. A proclamação da república deu início a um amplo processo de modernização e urbanização, inaugurando um projeto de salubridade para o Brasil, através da remodelação das cidades, da instalação de redes de água e esgoto, do alargamento das ruas e da derrubada de cortiços. A situação geral da saúde no país, porém, caracterizava-se pela propagação de epidemias, falta de serviços de atendimento à população, precariedade dos recursos e necessidade de verbas especiais em situações de emergência.



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