.Entrevista

17/06/2010 · 14:57
Na mancha da onça
Ex-aluno da Unisinos, Peter Crawshaw Júnior, tornou-se referência na biodiversidade
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Texto: Priscila Pasko
Imagens: Walfrido Tomás/Embrapa


Nos últimos anos, palavras como “sustentabilidade” e “preservação” têm sido recorrentes nos mais diversos grupos da sociedade. Tais expressões servem como apelo publicitário ou como enquadramento de uma nova postura do mundo contemporâneo. Mas para pessoas como Peter Crawshaw Júnior, o tema não só é antigo como é a razão da sua vida. Graduado pelo Curso de Biologia da Unisinos, em 1977, o conservacionista é uma das grandes referências no país quando o assunto é biodiversidade.

 

Peter é considerado o maior defensor da onça-pintada do Pantanal. Confira abaixo, a entrevista concedida por e-mail à redação do JU On-Line:

 

Em que momento o senhor resolveu optar em trabalhar na área da biodiversidade? Tinha alguma referência?
Eu tive o privilégio de começar a trabalhar com o Dr. George Schaller, que sempre foi minha referência, até hoje.  Durante os seus 50 anos de trabalho de campo, ele fez os primeiros estudos sobre gorilas, tigres, leões, leopardo-das-neves, o panda e também sobre a nossa onça-pintada.  A vida dele é um exemplo de tenacidade, competência, e dedicação, que certamente se refletiram em um mundo melhor para todos nós, como mostra um documentário recente, feito em sua homenagem.

 

Há 20 anos, mais ou menos, ambientalistas e conservacionistas eram chamados de “ecochatos”. Qual o cenário hoje? Estas pessoas ainda não são encaradas com a devida seriedade ou houve uma mudança positiva?

Acho que, de maneira geral, as pessoas estão se conscientizando mais, principalmente com a perspectiva das mudanças ambientais que já são perceptíveis hoje em dia, embora isso seja mais visível nas camadas mais esclarecidas da população. No entanto, muitos daqueles que ocupam cargos de decisão e que deveriam estar se preocupando mais em conter as iniciativas predatórias contra o meio ambiente, ainda não o fazem. Haja vista o projeto que está tramitando atualmente sobre as mudanças propostas no Código Florestal que, se aprovadas, vão representar um retrocesso brutal na proteção das matas que ainda restam no Brasil. Parece incrível que isso ainda esteja sendo cogitado, nesses dias!

 

Para o senhor, falta uma comunicação mais efetiva e abrangente para que o cidadão comum se conscientize sobre a importância da biodiversidade? Existem falhas na forma de abordar e expor os problemas? Ou é o cidadão que não demonstra interesse?

Acho que todas as pessoas que trabalham, de alguma forma, com conservação, têm que assumir o compromisso de ver de que forma podem colaborar com a conscientização da sociedade em geral, principalmente o meio científico. Acho que não podemos nos restringir a fazer pesquisa apenas para o meio acadêmico, temos que, cada um do seu jeito, mostrar a importância da conservação da biodiversidade, em todos os seus segmentos, utilizando tanto os meios de comunicação de massa, nos grandes centros, como também o trabalho de formiguinha, trabalhando com as populações rurais, mesmo que de casa em casa, família por família. Na verdade, na maioria dos casos, são essas pessoas, que vivem dentro ou próximas de áreas naturais, que vão interferir diretamente, de forma positiva ou negativa, na conservação de parques nacionais, estaduais e outras unidades de conservação, onde a biodiversidade deve ser protegida.

 

Qual seria a maneira ideal de esclarecer as pessoas sobre a riqueza da biodiversidade?

Não sei se existe uma maneira “ideal”, acho que isso vai depender de qual o público que se quer atingir. Temos que descobrir qual a melhor maneira, qual o melhor veículo, e qual a linguagem e metodologia que obterá melhores resultados para atingir os objetivos desejados. Assim como qualquer projeto de marketing, no campo comercial, acho que a conservação também tem que ser encarada a sério, de maneira profissional, estudando quais as melhores estratégias, mas sem esquecer que é extremamente importante colocar o coração naquilo que se quer proteger. Talvez a combinação ideal seja fazer as coisas baseadas na razão, no conhecimento, mas com toda a emoção que a conservação do nosso próprio futuro no planeta evoca.

 

Sobre a população que reside próxima às áreas de desmatamento ou de extinção de determinadas espécies. Há falta de alternativas econômicas para que eles se mantenham e, por isso, recorrem aos recursos naturais, ou apenas falta de informação?

Eu acredito que é nossa responsabilidade, dos técnicos e dos governos, de estudar, testar e oferecer alternativas coerentes e eficientes para essas populações, para que eles não tenham a desculpa de estar usando recursos escassos ou em risco de extinção como única alternativa de sobrevivência. Acho que existe um campo enorme a ser explorado nesse contexto. Em alguns casos, no entanto, acho que tem ser usada a repressão também, como no caso da caça como característica cultural, quando põe em risco espécies da fauna, como as onças, antas, porcos do mato, entre outras.

 

Na sua avaliação, qual a diferença dos profissionais da Biologia que se formam hoje, na área da biodiversidade, em relação à época em que o senhor concluiu o curso aqui na Unisinos?

Uma vez que não sou professor e não tenho acompanhado os números, não saberia responder em termos numéricos. Mas acho que, tanto antes quanto agora, os que realmente fazem a diferença, são aqueles que conseguem, cedo ainda, identificar o seu campo de interesse e perseguem esses ideais com afinco e profissionalismo.  E isso é tanto mais verdadeiro quando o interesse é em Conservação, quando se tem tanto a fazer na proteção das espécies. Por isso, eu sempre procurei atender a todos os que me procuram, nos diferentes projetos com que estive envolvido, treinando e oferecendo estágios a estudantes e a profissionais em início de carreira. No campo da Conservação, eu já publiquei em um trabalho que, mais importante do que méritos acadêmicos, é o gostar de trabalhar em campo, é o de fazer as coisas com o coração, por acreditar no que se está fazendo, e fazer sempre o melhor que puder fazer, procurando se especializar dentro do seu campo.

 


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