.Entrevista

19/06/2013 · 11:17
Caravelas ao mar
Aluno da Unisinos faz intercâmbio para Portugal por meio do Programa Ciências sem Fronteiras
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Texto: Michelli Machado
Imagens: Arquivo pessoal

Mais de 500 anos depois da chegada de Cabral ao Brasil, estudantes brasileiros fazem o caminho inverso e se aventuram nas terras de além mar. Um dos responsáveis por essa volta às origens é o Programa Ciências sem Fronteiras, que oportuniza aos alunos de graduação a chance de um intercâmbio com universidades portuguesas.


Quem está vivendo essa realidade é o estudante do curso de Engenharia Elétrica da Unisinos , Higor Pascoal Melo. Em Portugal desde o início do ano, Higor está conhecendo as peculiaridades do país e descobrindo o que é mito e o que é verdade, quando falamos da terra dos Pastéis de Belém. “Percebi que minha visão estava errada, não por supervalorizar Portugal ou a Europa como um todo - pois o ensino aqui é de altíssima qualidade - mas por subestimar a excelência acadêmica do Brasil”, contou o estudante.

Higor, inevitavelmente, compara todos os dias, Portugal a sua ex-colônia e destaca as lições, que ainda temos que aprender com os portugueses. “O transporte público é de alta qualidade e muito fácil de usar. Além disso, os preços dos alimentos no supermercado são muito inferiores aos do Brasil, quando se comparando ao salário mínimo de cada país”, salienta.


JU: Como era sua rotina antes da viagem?
Higor Pascoal Melo: Já no começo do curso de graduação, busquei conciliar minha vida acadêmica com a possibilidade de adquirir experiência profissional. Sendo assim, comecei a realizar estágios muito cedo. Desde meu segundo ano na universidade até o momento em que tive a oportunidade de realizar esse intercâmbio para Portugal, minha rotina consistia em realizar estágio em alguma empresa durante o dia e estudar à noite. Além disso, fazia curso de inglês nos sábados pela manhã.

JU: Por que você resolveu participar do Programa Ciência sem Fronteiras?

Higor Pascoal Melo: Sempre tive vontade de ter uma experiência internacional, pois via o quanto isto é valorizado, tanto no meio acadêmico, quanto no meio profissional. Então quando descobri sobre o programa me inscrevi e felizmente consegui uma vaga.

JU: Quais eram suas expectativas antes da viagem?

Higor Pascoal Melo: Acho que os brasileiros no geral (incluindo eu antes do intercâmbio) têm uma espécie de 'síndrome de inferioridade' quando se fala algo em relação à Europa. Eu esperava encontrar uma realidade totalmente diferente da brasileira em relação ao meio acadêmico como se nós brasileiros estivéssemos em um nível abaixo. E com o passar do tempo aqui, descobri que não é verdade.

JU: Como está sendo a experiência de morar e estudar em Portugal?
Higor Pascoal Melo: Posso dizer sem exagero que esta tem sido a experiência mais fantástica que já vivi. A princípio fiquei surpreso em ver o quanto os portugueses consomem cultura brasileira (principalmente programas de TV e música) e o quanto eles conhecem sobre nós, comparando com o pouco que nós conhecemos sobre eles. Em relação ao meio acadêmico como comentei anteriormente, esperava ver uma discrepância entre Brasil e Portugal, o que não vi. Achei a qualidade de ensino muito semelhante, sendo que estudo na universidade mais conceituada de Portugal, atualmente.


JU: O que você aprendeu de mais importante para sua vida profissional e pessoal?

Higor Pascoal Melo: Aprendi que o mundo não é tão grande como se imagina, que os lugares mais distantes e as pessoas que nunca pensamos em conhecer estão a apenas algumas horas de avião. Aprendi que não adianta tentar se fechar em uma ‘concha’ e não querer apreender outras culturas, outros idiomas, outros jeitos de fazer as coisas - não que eu não quisesse aprender tudo isto antes de fazer o intercâmbio, mas vivenciando esta experiência vi o quanto é essencial. No final das contas, se você quiser ser um dos melhores uma hora ou outra você vai ter de sair da ‘zona de conforto’ e se arriscar em lugares diferentes com pessoas diferentes (mas também vai perceber o quanto isto é gratificante).

JU: Qual sua expectativa para o retorno ao Brasil?

Higor Pascoal Melo: Não tenho nenhum planejamento de longo prazo, mas assim que voltar espero conseguir um estágio em alguma empresa - muito possivelmente meu último estágio antes de ingressar em um emprego já como formado. Outro plano é começar a preparar meu trabalho de conclusão, além de cursar as disciplinas que restam para concluir meu curso, e enfim me formar.



JU: O que mais está gostando em Portugal e o que sente mais falta daqui do Brasil?
Higor Pascoal Melo: Apesar de podermos dizer que Portugal é um país mais 'pobre' que o Brasil (principalmente nos últimos anos devido à forte crise econômica na Europa) é surpreendente ver a estrutura que o país tem para fornecer os requisitos básicos para a população. Em relação à violência, me sinto muito mais seguro aqui, não que não haja assaltos, pois há, mas pode-se perceber que a violência não ocorre de forma tão banalizada como no Brasil. Outro fator que gosto muito é a estrutura que Portugal tem para receber estrangeiros, não é difícil encontrar placas, instruções, atendimentos, em outras línguas (principalmente inglês), isto não foi tão essencial para mim já que falo português no entanto esta internacionalização me chamou atenção já que não ocorre deste jeito tão forte no Brasil.  Quando se vive em um país europeu o contato com estrangeiros acaba sendo uma rotina frequente e considero isto um dos fatores mais enriquecedores neste meu intercâmbio. Hoje posso dizer que tenho amigos de todos os continentes. Não ter mais esta facilidade de conhecer pessoas de culturas diferentes é outra coisa que sentirei muita falta quando voltar ao Brasil. Pensando em coisas que sinto falta, a primeira que veem à cabeça são as pessoas do cotidiano no Brasil. Com certeza ficar longe delas é a coisa mais difícil durante o intercâmbio. Em segundo lugar, diria que o que mais faz falta é a comida brasileira, não apenas o sabor em si, mas também a fartura com que é servida no Brasil. Ao menos em Portugal é relativamente fácil encontrar restaurantes brasileiros e até mesmo churrascarias gaúchas - que incrivelmente acabam sendo mais baratas aqui do que no próprio Rio Grande do Sul.



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