Consultor da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), Rafael Carbonell de Masy é professor visitante da Unisinos eum nome de prestígioem cooperativismo no cenário internacional. Aliás, foi no Dia Internacional do Cooperativismo, comemorado em 20/7, que, em entrevista ao JU Online, ele defendeu - com segurança e clareza - a idéia de pré-cooperativas como uma etapa preparatória para a sua formação definitiva. Carbonell, aos 70 anos - completa 71 agora, em agosto -, tem uma vitalidade contagiante e um entusiasmo natural ao fazer novos contatos.
O professor, que mora em Roma e passa, anualmente, três meses no Brasil, milita por um cooperativismo sério, que não seja uma alternativa econômica aventureira e que não esteja atrelado ao paternalismo de Estado. Graduado em Direito, Filosofia e Teologia, Carbonell nasceu no município espanhol de Llanes, em Asturias, região ao norte da Espanha. Ele é padre jesuíta e professor da Pontificia Università Gregoriana. Na Unisinos, Carbonell leciona cooperativismo em cursos de especialização e no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais Aplicadas.
Mestre em Desenvolvimento Econômico Agrícola Internacional pela Universidade da Califórnia e doutor pela universidade espanhola de Sevilla, na Espanha, sua tese foi premiada pelo Ministério da Agricultura do governo espanhol, em 1976, no mesmo ano em que Carbonell visitou, pela primeira vez, a Unisinos. Nesse ano, Carbonell integrou o primeiro grupo de professores do curso de especialização em Cooperativismo, que está na 27ª edição. Desde então, uma vez por ano, reencontra amigos no câmpus, que procuram cumprimentá-lo quando sabem que está circulando pelos corredores do Instituto Humanitas ou do prédio das Ciências Humanas.
Carbonell, autor de 15 livros, entre os quais Estratégias de Desenvolvimento Rural nos Povos Guaranis e de Moderna Administração Cooperativa, é crítico do paternalismo do Estado - frisado mais de uma vez -porque, segundo ele, favorece investimentos desnecessários e irracionais, resultando em uma crise no setor. Outro problema, na opinião dele, é o fato de haver apenas uma lei para regulamentá-lo, a de nº 5 764, de dezembro de 1971. \"Uma lei com artigos aplicáveis a todas as cooperativas é um absurdo. É preciso respeitar as diferenças e os diversos tipos de cooperativas\", disse, em português fluente.
Em relação ao fato de a cooperativa ser considerada uma alternativa ao desemprego, o pesquisador afirmou que não espera que uma organização econômica, por si só, tenha condições de alterar o quadro, mas sim um trabalho complementar que envolva diversos fatores como, por exemplo, a formação adequada dos próprios associados do ponto de vista técnico, social e econômico. Segundo dados do site da Organização das Cooperativas Brasileiras (www.ocb.org.br), que representa 7 355 cooperativas, divididas em 13 ramos, entre os quais agropecuário e consumo, cerca de 5,8 milhões de brasileiros são associados a cooperativas, e elas empregam mais de 182 mil pessoas.
Na opinião de Carbonell, que tem sempre um riso espontâneo engatilhado para disparar quando menos se espera, o importante na cooperativa é que existam pessoas capazes de analisar situações e alternativas de gestão e controle, bem como capacidade de comunicação e liderança. \"Existem muitas cooperativas que não são democráticas da forma que aparentam\",denunciou o pesquisador. Para ele,não pode haver uma cooperativa rica com associado pobre: \"Os recursos têm de estar vinculados ao associado, o que significa uma mentalidade de compreensão do capital coletivo da cooperativa\". E, ainda, o reconhecimento da necessidade de uma poupança voltada paraesse mesmoassociado.