André Liohn é um fotógrafo brasileiro que realiza cobertura de guerras e enfrenta longos e perigosos conflitos sangrentos. Sua primeira cobertura foi na Iugoslávia. Em 1994, ele saiu do Brasil, e depois de ter vivido fora do país por vários anos e de ter juntado algum dinheiro, começou a fotografar. Ele sempre soube que faria fotografia de guerra. Só neste ano, realizou coberturas na Tunísia, Egito, Barém e Libia.
Depois de contatá-lo via e-mail e de longas tentativas de conexão, André concedeu uma entrevista por vídeo conferência, direto de Roma, as alunos do Curso de Comunicação Social da Unisinos, Quenani Leal e Marcela Donoso.
Confira a entrevista:
Alunos: André, como surgiu inspiração para a fotografia?
André: Cresci em Botucatu, São Paulo, tive uma infância delinquente e marginalizada. Sempre falávamos “Alguém tinha que estar aqui para fotografar isso” enquanto aprontávamos pelo bairro. E essa ideia foi sendo construída na minha cabeça desde muito jovem.
Alunos: E quando foi seu encontro com as câmeras, qual foi o momento?
André: Com 30 anos.
Alunos: E não foi tarde?
André: Tarde? Não... Isso já estava definido na minha cabeça, o fato de eu ter ou não o equipamento não tirava a minha ideia fixa de fotografar. Foi o momento que foi...
Dou aulas e seminários e vejo gente que passa três ou quatro anos dentro de uma faculdade de fotografia e saem dali sem saber o que vão ser. Não são fotógrafos! Existe o momento e não essa questão de cedo ou tarde.
Alunos: E, mais especificamente, como se deu a cobertura fotográfica de guerra?
André: As histórias, a violência social que vivi. Isso me impactou. Um exemplo são meus amigos, onde a maioria está morta, pelo tráfego de drogas, roubos, abusos da polícia, luta armada e enfrentamento. Como eu lhe falei, morava num bairro pesado de Botucatu (SP) e a minha realidade foi essa. Foi bem próximo do que é a guerra hoje.
Alunos: Para você, qual é a função da fotografia?
André: A fotografia em si não tem importância nenhuma, o mais importante são as pessoas. Do que adiantaria um fotógrafo me clicar quando criança, naquela realidade, apenas por clicar, eu seria um boneco do jogo do cara? Quem iria se importar com as minhas experiências e com o que vivíamos naqueles dias. Se fosse assim, nem eu iria querer ser fotografado por alguém. Muitos têm sonho de ser um fotógrafo de guerra, tem um charme, pensam: “É uma aventura, é legal...”. Há uma certa mística. Mas quando realmente se depara com a realidade da guerra e a confronta, a mística se desfaz, se desmonta. Você resiste e não quer aceitar, mas você fica mal, doente, sofre, adquire traumas profundos e fica assim por um longo período.
Alunos: Dentro desta realidade, conte-nos algo que foi intrigante ou, especialmente, inusitado.
André: Aconteceu comigo exatamente o contrário disso. Estávamos no Haiti, cobrindo o terremoto (em 2010), não era um contexto perigoso, a população estava devastada e muito passiva, aceitava a ajuda de qualquer um (...) e era muito gráfico, fácil de fotografar todo caos e destruição. Conheci uma fotógrafa brasileira em uma das suas primeiras viagens para Porto Príncipe. Ela confidenciou que tinha uma fascinação por cadáveres. Será que ela já viu algum? – pensei. Ela fotografava de forma cruel todos os cadáveres que encontrava, Fiquei intrigado. Estávamos hospedados numa base militar e certo dia um cachorro apareceu, esta fotógrafa o acolheu, deu muito carinho, chama de filho e filha.
Adorava ver gente morta, excitava-se com isso e expressava profundo carinho pelo cachorro. Dias após ela aparece desesperada, chorando copiosamente, por que seu cachorro fora atropelado nas ruas de Porto Príncipe. Como se explica esse sentimento pelas pessoas? Onde está sua humanidade? Esse fato no Haiti demonstra o despreparo ou a deslealdade com o ser humano. Parece mentira, mais isso realmente eu testemunhei.
As fotografias da cobertura do terremoto do Haiti em 2010, premiaram André no festival de fotografia de Nova Iorque (www.newyorkphotofestival.com ).
Alunos: Qual o motivo para as pessoas ainda fazerem a guerra?
André: Guerra é uma coisa complexa. Um dos grandes motivos é que gostamos muito dos seres humanos! Imagine ter sua família arrasada, aniquilada e violentada, e você revida, comete crimes ainda piores, sem culpa, é ainda mais cruel. Isso é guerra.
Guerra vai sempre existir. Talvez uma das formas de fazê-la cessar é ela ser o mais cruel quanto possível, para ver o quanto dói e as pessoas não tolerem, para que sejam realmente afetadas e possam dizer: “Não queremos mais isso!” O grande público tem pouquíssimo poder, a política vai driblar, vai continuar ocorrendo erros. Minha forma de reagir a tudo isso é mostrar a sujeira para que possamos confortar os preconceitos, a discriminação, a humilhação e mudar o comportamento da maioria.
Alunos: Como é sua rotina?
André: Trabalho para que o que faço seja usado da melhor forma possível. Não preocupo com a visibilidade, mas sim com a qualidade, o propósito e como chega nas pessoas.
Meu trabalho é usado em vários veículos de comunicação pelo mundo, e também por outras organizações. Uma delas é o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Busco histórias e casos que, para essas organizações, sejam interessantes. No campo é o tempo inteiro conversando com as pessoas, como fotojornalistas, documentando os fatos de sequestro, assassinato, confrontos, etc.
Alunos: Como é enfrentar a guerra?
André: Tem que estar preparado para isso, tem que ser cuidadoso. Você pode até não acreditar que o diabo exista, mas quando você está na guerra vai se deparar com ele e verá ele de frente. Você terá que tocar no nariz dele e dizer: “Você é de verdade mesmo?” Você não pode correr...
Alunos: Recentemente você noticiou a morte de dois colegas fotógrafos pela internet, alguma foto é tão importante para valer o risco de vida?
André: Escuto sempre: “Nenhuma foto é tão importante para valer o risco da vida”. Acredito que algumas fotos são, elas podem valer a sua vida. Fotos que levam a um profundo questionamento da vida. Que levam a reflexão... E você vê, tenho família (ruídos de crianças brincando ao fundo) isso não é uma bobagem.
André foi o primeiro a notificar as mortes dos premiados fotógrafos Tim Hetherington e Chris Hondros em ataque na Líbia.