Negro: Retirado de sua terra, levado para um Brasil onde nem era considerado gente, nem mesmo alma lhe era atribuída. Sua cultura foi subtraída e lhe impuseram uma cultura branca. Foi intitulado objeto, mercadoria, ou seja, escravo cativo em absoluta sujeição ao branco.
Os anos se passaram e lhe disseram: “O negro é livre!” Livre? Liberdade sem justiça social. E as perdas, os danos causados a esse “negro”, mulheres, homens, idosos e crianças que sofreram mais de 300 anos de escravidão? Porque não dizer mais de 500 anos de humilhações e privações? A liberdade que lhes era e é de direito é a liberdade de valorização cultural, liberdade de igualdade de direitos.
Para essa liberdade existir é preciso justiça, que seja feita justiça social!
De que forma? Uma delas seria as Ações Afirmativas na educação brasileira, que se tornariam forma de implementar o principio de igualdade, já mitigado pela discriminação racial. Um fator importante dentro das ações afirmativas foi a lei federal 10639/2003, que inseriu a temática de história e cultura Afro-brasileira e indigena no curriculo oficial da rede de ensino. Ela vem para assegurar o resgate da cultura e história da população negra. Mas é preciso salientar que, para as ações afirmativas terem êxito e acabarem com a discriminação racial é primordial a adesão da população e um esforço conjunto de toda a sociedade no sentido de alterar sua mentalideade racista.
Infelizmente, no Brasil o racismo ainda é uma verdade. Vivemos o “racismo cordial”, disfarçado por uma falsa democracia racial. Exemplo disso é uma pesquisa recente elaborada pela Fundação Oswaldo Cruz, em conjunto com a Prefeitura do Rio de Janeiro (Folha de São Paulo, 26/05/2002). Ali fica claro que negro em hospitais públicos e particulares do Rio de Janeiro (e provavelmente em todo o Brasil) é discriminado desde antes de nascer. As gestantes negras têm menos cuidados médicos do que as brancas. Isso significa receber menos anestesia no parto normal, receber menos explicação sobre o aleitamento materno, cuidados com o recém-nascido, sinais do parto, pré-natal, alimentação adequada, entre outras coisas. Nas palavras da pesquisadora Silvana Granado: “Primeiro achamos que estávamos comparando pessoas de classes sociais e de níveis de escolaridade diferentes. Mas, quando percebemos que a diferença se mantinha, ficamos chocados”. Pode-se concluir que serviços universalizados continuam sob o patrocínio do racismo cordial.
Neste sentido, esta semana tive uma surpresa negativa. Na sala de aula, ao discutirmos sobre uma palestra proporcionada pela Unisinos, que trazia o assunto Políticas Etnicoraciais nas Universidades, defendi a política de cotas para negros. Para meu “ingênuo espanto” fui vaiado. Fiquei constrangido ou encabulado por mim, mas também pela constatação de que ainda falta muito para que a sociedade aceite e venha enxergar nossa realidade racista.
Também não culpo meus colegas, pois já fui enganado por esse contexto de segregação racial encabeçado pela mídia e por uma elite desinteressada em soluções para o tema. Tendo em vista os grandes benéficos das Ações Afirmativas, reduzir as atenções nas cotas fixas para negros prejudica a evolução acerca do tema. Contudo, reafirmo aqui minha posição de que as cotas fixas se fazem necessárias nesse primeiro momento, para pormos em “pé de igualdade” e justiça social a todos. As cotas para alunos negros nas universidades públicas podem compor um conjunto de medidas práticas, efetivas e imediatas que apontem para o fim das desigualdades raciais na sociedade brasileira.Obviamente, o problema é muito mais complexo, mas pelo menos está sendo enfrentado de forma mais clara nos últimos tempos em nosso país.
Tendo a plena convicção de que a política de cotas visa reparar o ONTEM, deixo aqui então a opinião de um branco, pobre, 31 anos, bolsista do ProUni, e com a auto-estima preservada.
Daniel Sauer
Serviço Social