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14/10/2011 · 14:50
Em busca de novos conhecimentos
Estudante brasileiro cursa mestrado em semicondutores na Coreia do Sul
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Texto: Paloma Rühee
Imagens: Arquivo pessoal


Um produto tão pequeno em tamanho, mas capaz de armazenar uma quantidade impressionante de informações, sempre atraiu a atenção de um brasileiro. Os semicondutores fizeram o gaúcho, Tomás Scherrer, deixar o Brasil, um ano e meio atrás, e viajar mais de 18 mil quilômetros até a Coreia do Sul, para aprender um pouco mais sobre essa indústria que vem fascinando o mundo.

A oportunidade, para esse engenheiro mecatrônico, de fazer um mestrado no Korea Advanced Institute for Science and Technology (Kaist), surgiu através de um convite de um professor que tinha contatos com a Embaixada do Brasil em Seul.  A curiosidade sobre a cultura asiática e a vontade de estudar no exterior, aliadas ao excelente currículo da Kaist, não deixaram dúvidas para Scherrer: a Coreia do Sul era o caminho a seguir.   

Confira abaixo a entrevista que ele deu, com exclusividade, para o JU:

Aqui do Brasil, a gente houve falar muito da tecnologia dos institutos de pesquisa da Coreia do Sul e da expertise dos coreanos nesta área, qual foi a sua percepção ao chegar aí?

Quando eu cheguei à cidade em que moro, Daejeon, a impressão foi de estar num enorme parque temático de ciência e tecnologia. Daejeon foi planejada para ser o "Vale do Silício" (lugar ao sul da cidade de São Francisco nos Estados Unidos) coreano. Parques tecnológicos e institutos cobrem uma boa porção da cidade. O interior desses centros de pesquisa se parece com um cenário de um filme: salas com ambiente controlado, bancadas abarrotadas de equipamentos e cientistas dedicando longas horas do dia à pesquisa. No ano passado, eu fiz um estágio no ETRI (Electronics and Telecommunications Research Institute), onde pude viver de perto a atmosfera dos institutos coreanos. Sem as pressões de curto prazo, típicas da indústria, os pesquisadores têm a liberdade de desenvolver seus talentos de forma plena. A impressão do ambiente de trabalho é de que todo mundo está fazendo exatamente o que gosta. O ETRI é o maior instituto de pesquisa do governo coreano, só nos último cinco anos, foram mais de mil transferências de tecnologia. E foi nesse instituto que foram desenvolvidas a central de comutação telefônica e a aplicação do CDMA, duas tecnologias chave para o desenvolvimento das telecomunicações no país (que hoje é líder mundial).
 
E quanto à educação? Como é o ensino neste país?

A educação é muito valorizada na Coreia do Sul. Para se ter uma idéia, a estátua do líder mais idolatrado da Coreia não esta segurando uma espada, mas sim, um livro. Trata-se do rei Sejong o Grande, que dedicou sua vida a criar um sistema de escrita que pudesse ser facilmente aprendido por todos. A educação é a prioridade “zero” dos coreanos. A família faz todo o seu planejamento em torno da educação dos filhos. Seul é a cidade mais populosa da Coreia do Sul, porque os coreanos acreditam que lá os filhos terão colégios melhores, e, por isso, as famílias almejam morar lá.

A vida dos jovens estudantes é muito árdua aqui. São mais de oito horas diárias de aula, e depois tem o que eles chamam de "instituto". No instituto, os alunos têm aulas de reforço em matemática, aulas de inglês, piano, e o que mais os estudantes (e principalmente os pais) quiserem. Os pais têm muita preocupação com o futuro dos filhos e, por isso, eles cobram bastante. A parcela de pessoas com educação superior é impressionante: 80% dos alunos que saem do ensino médio entram na faculdade.

Você poderia me explicar um pouco o tema da sua dissertação? O foco é a indústria de semicondutores?

A minha dissertação é um manual de colaboração entre academia e indústria na área de semicondutores. Eu estou analisando casos da Coreia e do Brasil. O caso da HT Micron é a jóia da coroa, pois envolve universidades e empresas dos dois países.

Por que você escolheu esse tema? Foi em função do crescimento desta indústria no Brasil?


Primeiramente, eu escolhi estudar semicondutores porque eu tenho profundo interesse nessa área. Fico fascinado com a quantidade imensa de conteúdo intelectual que é cristalizado em um produto de tamanho tão pequeno, mas que contém um valor agregado tão grande. Mas também escolhi esse tema, em função do crescimento do setor no Brasil e das boas relações que temos com a Coreia do Sul.

Qual a previsão de conclusão do seu curso e quais as expectativas que você tem após concluí-lo?


Eu defendo a minha dissertação em dezembro deste ano. Depois disso, eu pretendo continuar na área de semicondutores. Uma opção que me interessa bastante é trabalhar nas empresas coreanas aí no Brasil, ou nas empresas brasileiras aqui na Coreia. Ter um diploma coreano ajuda muito nesta hora. Outra ideia é o doutorado, que gostaria de fazer aqui na Coreia do Sul. Desde meus tempos de graduação eu alimento a ideia de lecionar em uma universidade. Está difícil decidir entre continuar estudando ou ir agora para a indústria.


Estudar no exterior me deixou com dois corações, um que ficou no Brasil e outro que vai ficar aqui na Coreia do Sul. Como eu estou no clima daqui, eu gostaria de ficar por mais um tempo. Da mesma forma, eu tenho uma vontade muito grande de contribuir com a minha nação, de ajudar o Brasil a se desenvolver tanto quanto a Coreia, e até mais. Se eu puder ficar nessa fronteira, isto é, trabalhar para o Brasil baseado em solo Coreano, eu conseguirei cumprir com meus dois objetivos simultaneamente. Isto seria fantástico.

Qual o recado que você daria para os estudantes brasileiros que pensam em seguir carreira nessa área? O que eles podem esperar desse mercado?

O mercado de semicondutores só tem um caminho: crescer. Bilhões de pessoas no mundo todo estão saindo da pobreza e melhorando sua qualidade de vida. Isto representa um mercado enorme para a indústria de semicondutores. A razão disso é que, na medida em que essas pessoas se educam tecnologicamente, elas vão demandar uma imensa quantidade de produtos tecnológicos. O mercado de tablets, no Brasil, é um exemplo disso. É o tablet (e não o PC, ou o laptop) que serve de porta de entrada para o mundo da tecnologia. Essa onda está no ápice agora, e outras estão por vir.

Da mesma forma que o mercado de semicondutores está fadado ao crescimento, ele está condenado a mudar. Tecnologias inovadoras estão sendo introduzidas toda hora: o silício, por exemplo, que está chegando ao limite máximo de suas propriedades físicas, será, em breve, substituído. Sem contar na evolução rápida das metodologias de projeto e ferramentas computacionais. Manter-se atualizado é essencial. Mas isso não deve ser visto de uma forma negativa, um mercado dinâmico apresenta diversas oportunidades, e quem entrar nessa área, com uma visão empreendedora, poderá desfrutá-las.

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