.Fronteiras do Pensamento

31/10/2007 · 13:01
Filha da paz, filhos da guerra
Jornalista Asne Seierstad, palestrante do Fronteiras do Pensamento, deixou a Noruega para mostrar o lado humano dos conflitos
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Texto: Lia Luz
Imagens: Renata Stoduto

Ela nasceu num dos países mais pacíficos do mundo, onde praticamente não existe perigo em passear na rua à noite ou expor opiniões sobre política e religião. Mas, por conta de seu instinto jornalístico e sua curiosidade em desvendar um pouco mais o planeta em que vivemos, sua pátria deixou de ser somente a Noruega. Rússia, Chechênia, Sérvia, Afeganistão e Iraque também são lares para Asne Seierstad (pronuncia-se Osni Saierstad), autora de O livreiro de Cabul, 101 Dias em Bagdá e do recém-lançado no país de Costas para o Mundo.

Na terça (30/10), durante o Fronteiras do Pensamento, evento da Copesul apoiado pela Unisinos, contou por que (e como) diabos resolveu deixar a paz e ir atrás da guerra. E tudo ocorreu meio ao acaso. Embora tenha se tornado numa escritora e jornalista de sucesso (seus livros foram traduzidos para 40 idiomas), Asne não tinha qualquer pretensão de ser famosa e reconhecida mundialmente.

Tudo começou durante uma visita ao pai, que vivia na Rússia. Em Leningrado, conheceu pessoas que lhe deixaram intrigada e lhe despertaram a vontade de conhecê-las mais de perto. Como não falava a língua, resolveu ingressar num curso de Literatura Russa - quando se apaixonou por literatura, ao ler clássicos como Tolstói e Dostoiévski -, para, mais adiante, poder se comunicar com aquelas pessoas.

De volta à Rússia, viu-se impelida a ir ver de perto o conflito que estava estourando numa república que mal sabia pronunciar: a Chechênia. Corajosa, pegou uma carona num avião militar até lá. Mas o medo bateu quando se encontrou sozinha, sem local onde dormir, já que não havia hotéis, albergues ou qualquer outro tipo de acomodação disponível durante a guerra. Pediu ajuda para uma jovem menina na rua, e foi abrigar-se na casa dela.

Dentro daquelas quatro paredes, aos 23 anos, encontrou o tema de sua primeira matéria como correspondente de guerra. Era sobre uma garota de 17 anos, grávida, segundo a própria, de 10 meses, pois o neném não queria nascer devido a toda tensão que a futura-mãe sentira durante os embates. "Descobri a história só porque estava aterrorizada de ir para as ruas cobrir a guerra", revela.

Depois disso, Asne dedicou cerca de cinco anos aos conflitos de Kosovo, na Sérvia, onde chegou a ter uma carreira relâmpago na televisão, da qual desistiu quando percebeu que estava se tornando em um tipo de jornalista que sempre repudiara, daquelas preocupadas apenas com o deadline e em encaixar histórias, por mais dramáticas que fossem, em 30 segundos. "Fazia tudo tão rápido, que perdia os detalhes. Pedi a um pai cujo filho havia desaparecido que resumisse o fato em menos de um minuto. Ele me disse `experimentei a pior coisa que um ser humano pode enfrentar, e tu me pede para relatá-la em 30 segundos?’".

O restante da história de Asne é mais conhecido, em razão de seus dois primeiros livros. Talvez o que não se saiba é que, ao pisar no Afeganistão, nunca havia visto uma burca. "Apresento sempre histórias muito concentradas, para que pessoas, sem conhecimento prévio dos assuntos, consigam entendê-los", salienta. "Além disso, nos livros é possível escrever sobre pessoas comuns, que não teriam espaço nas páginas dos jornais", complementa.

Esse é o caso de três personagens, dois rapazes e uma moça, do livro sobre a guerra do Iraque. Antes do conflito, os dois eram melhores amigos, viviam na mesma rua e haviam freqüentado a mesma turma na escola. Por conta da repressão, jamais havia conversado sobre as escolhas étnicas. Diante da queda da estátua de Saddam Hussein, os dois choraram. Um, de felicidade, o outro, de humilhação. Um era sunita e o outro, xiita. Hoje, são inimigos. Um está com as forças americanas e o outro, com as da resistência iraquiana. Ela. Bem, ela, a exemplo daquele dia histórico, continua sem posicionar-se, pois tem de se preocupar com a família.

O próximo destino de Asne é o lugar onde tudo começou, a Chechênia. Não conseguiu encontrar a criança, hoje com 13 anos, que nasceu de 10 meses, mas encontrei um outro menino dessa idade. "Quero mostrar com é uma criança que nasce e cresce numa área de conflito. Se pudesse deixar uma mensagem, seria a de tentar parar as guerras, por causa delas. Os que morrerem já foram. Os que ficam crescem para andar com faca na cintura e matar gatos e cachorros de rua, para sentirem-se bem, como é o caso do meu personagem".



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