.Instituto Humanitas

28/04/2008 · 09:20
Ferramentas minúsculas, resultados gigantescos
Entrevista de JU Online com Eric Drexler, pai da nanotecnologia, é destaque no caderno Globaltech/ZH. Veja a matéria na íntegra
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Texto: Lia Luz


Descobertas recentes deram aos cientistas a habilidade de fabricar materiais simples com precisão atômica. Em uma década, será chegada a época em que átomos e moléculas formarão um conjunto de ferramentas minúsculas, mas minúsculas mesmo, capazes de construir produtos complexos e de alta performance dos mais variados tipos e tamanhos com essa mesma precisão.

Estamos falando do avanço da nanotecnologia, que compreende estruturas formadas por até 100 nanômetros, unidade que equivale à bilionésima parte de um metro (um fio de cabelo humano, por exemplo, tem 80 mil nanômetros de espessura), e da previsão do pesquisador norte-americano Eric Drexler. Considerado o pai da nanotecnologia, ele é uma das personalidades mais aguardadas do Simpósio Internacional Uma Sociedade Pós-Humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias, que ocorrerá na Unisinos entre 26 e 29/5, numa promoção do Instituto Humanitas Unisinos.

Dono do primeiro PhD da área no mundo, obtido em 1991 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, por sua sigla em inglês), ele revela que o desafio atual é apoiar-se no que já foi alcançado para reproduzir os achados em maior escala. Uma introdução a tal cenário visionário são as nanofábricas de hoje capazes de manipular com precisão alguns materiais brutos com moléculas simples. Mas, em geral, esse rearranjo de átomos ainda é feito de maneira tosca. Até mesmo os melhores microchips comerciais são grosseiramente irregulares no nível atômico, e muito da nanotecnologia atual esbarra nesse mesmo problema.

Os nanosistemas produtivos resolveriam essa questão, fabricando moléculas com precisão. As chamadas Tecnologias de Precisão Atômica (APT, por sua sigla em inglês) têm o potencial de vencer muitos dos maiores desafios globais, como reverter o acúmulo de gases do efeito estufa, trazendo revoluções para a ciência, a medicina, a energia e a indústria. \"Essas tecnologias utilizam um processo controlado de operações para construir estruturas com precisão atômica, em que moléculas são arranjadas em posições e seqüências específicas\", explica o pesquisar, considerado o pai da Nanotecnologia.

Drexler foi um dos líderes técnicos de uma iniciativa que reuniu 70 membros de grupos de pesquisas da academia, da indústria e de laboratórios dos Estados Unidos para criar o Roadmap project, espécie do mapa que aponta quais pesquisas devem ser desenvolvidas para construir tal promessa. Os processos avançados de produção com precisão atômica prometem revolucionar tudo, criando, por exemplo, desde medicamentos inteligentes contra o câncer a células fotoelétricas com eficiência solar.

1- O que você abordará em sua palestra?
Eric Drexler
- Descreverei o futuro da nanotecnologia ao ponto em que ela se transformará em uma tecnologia revolucionária para fabricação de produtos de alta performance dos mais variados tamanhos. Análises baseadas na física mostram que isso poderá ser feito a um custo baixo, com pequeno consumo de materiais e sem emissão de carbono.

2 - O que poderemos esperar da nanotecnologia para os próximos anos?
Drexler -
Inicialmente, uma melhora significante, mas não revolucionária, em materiais, aparelhos, sensores e em tecnologias médicas. Mas, em uma década, uma nanotecnologia avançada, cujos produtos mais importantes serão minúsculas ferramentas que serão usadas para construir ferramentas maiores, num processo semelhante ao ocorrido no passado, quando os ferreiros criaram as primeiras ferramentas, que, com o tempo, se transformaram em máquinas e, finalmente, em fábricas modernas.

3 - Como funcionam essas nanoferramentas?
Drexler -
Eles seriam capazes de reestruturam e reagrupar moléculas de forma ordenada, criando produtos de alta precisão atômica. São os chamados nanosistemas produtivos, capazes de seguir instruções, passo a passo, até criar produtos complexos, exatamente como ocorre com os ribossomos, na Biologia, que seguem ordens digitais (dos genes) para guiar a montagem de objetos moleculares (as proteínas).

4 - Há riscos de esse cenário não se consolidar? As nanotecnologias, por exemplo, alcançaram os cenários desenhados há uma década?
Drexler -
Os cenários excitantes desenhados no passado eram sobre as nanotecnologias no nível de fabricação em larga escala de produtos com precisão atômica. Atualmente, a nanotecnologia encontra-se ao nível do ferreiro, da criação das ferramentas de base. Temos um longo caminho para alcançarmos os nanosistemas produtivos, mas os próximos passos são claros e não há obstáculos.

5 - Seu trabalho já foi alvo de críticas, considerado ficção científica. Por quê?
Drexler -
Em parte porque tais idéias (ou distorção delas) foram usadas em muitas histórias de ficção científica e, em parte, em razão da enorme desinformação da imprensa. Cientistas que leram os estudos técnicos sabem que não se trata de ficção científica mas, ao contrário, de um conceito baseado na física e que exigirá grande esforço, mas trará grandes resultados.

6 - Em que o senhor está trabalhando atualmente?
Drexler -
Na empresa Nanorex, tento desenhar softwares para essa tecnologia, usando como base o DNA, não como um gene, mas em razão de sua nanotecnologia estrutural. Dá para dizer que estamos ajudando os ferreiros a criar as alavancas que transformarão as ferramentas em máquinas.

 


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