.Mestrado e Doutorado

20/05/2013 · 11:21
País do futuro
Durante encontro do GBP na Unisinos (17/5), palestrantes falaram sobre a realidade do Brasil, comparando-a com a dos EUA e outras nações
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Texto: Pâmela Oliveira
Imagens: Rodrigo W. Blum

Mais de sete mil quilômetros e nove horas de voo separam Brasil e Estados Unidos no mapa geográfico. Uma outra distância – menos matemática e mais subjetiva – coloca ambas as repúblicas em margens opostas de um abismo metafórico: a distância em termos de desenvolvimento nacional. “Este é o país do futuro”, alegou Barack Obama, em visita à nação verde amarela, dois anos atrás. A declaração parece ter sido bem recebida pelos brasileiros, porém, pouco compartilhada por estudiosos como o professor André Azevedo: “Superada a crise econômica, nossa inflação reduziu, mas a taxa permanece como uma das mais elevadas entre os países emergentes”. O que teria, então, motivado a afirmação do presidente norte-americano?

Para chegar à resposta, é preciso voltar na história. Conforme explica o professor Luiz Paulo Bignetti, entre as condições para o crescimento de qualquer país está a existência de forte arranjo institucional, capaz de garantir transações econômicas e relações sociais. Acontece que aqui, na América do Sul, o arranjo foi formado às avessas, se comparado ao ocorrido no Norte. “Mayflower atracou nos Estados Unidos em 1620, enquanto o Brasil foi ‘descoberto’ em 1500. Somos 120 anos mais velhos que eles e, ainda assim, menos adiantados”, compara Bignetti, “Nós fomos encontrados por exploradores, e não desenvolvedores”.

O professor acredita que até a fuga da família real portuguesa das tropas de Napoleão Bonaparte não existia sociedade brasileira: “O que havia era uma confusão de pessoas”. Daí a relevância histórica de 1808, quando a monarquia transferiu a corte para cá: “Diferente do que aconteceu nos Estados Unidos, onde o povo criou o governo, no Brasil, o governo criou o povo. O arranjo institucional foi consolidado de cima para baixo”. E permanece assim, defende ele, inclusive na educação: “O Estado é paternalista e dá pouca margem à inovação. Prova disso é a necessidade de pedir autorização formal do MEC antes de instituir novos cursos superiores”. Isso sem considerar que a primeira universidade do país foi criada apenas em 1923, 287 anos depois de Harvard, a pioneira norte-americana. “E só porque o rei da Bélgica estava aqui e precisava do diploma”, complementa Bignetti.



Segundo o pesquisador, foi pela época da chegada da família real que o país começou a se desenvolver e enfrentar o que viria a ser o primeiro tipo de inflação brasileira. “Dizem que D. João era fã de coxinhas de frango e que as carregava com ele. A oferta era enorme, todos queriam vender para o rei”, comenta, em tom de graça, e ressalta: “Dizem. Eu não estava lá para confirmar”.

Já o que se pode confirmar em números é assunto do professor André Azevedo. Seus estudos indicam que, em relação ao Produto Interno Bruto, o Brasil está trilhando o caminho das nações desenvolvidas, mas ainda tem estrada a percorrer. “Na última década, a taxa de produtividade no país cresceu apenas 10%. Na China [também emergente], nesse mesmo período, o valor chegou a 150%”, diz ele. E, quando a comparação é com a nação norte-americana, a realidade é, mais uma vez, perturbadora: “Em aproximadamente 15 anos o Brasil passou por cinco recessões, contra duas nos Estados Unidos”.

A realidade, na opinião dos pesquisadores, mostra que há lacunas no progresso da nação. “Falta capital para investir em saúde e educação, mas ao mesmo tempo custeamos eventos internacionais de grande porte, como a Copa 2014, por exemplo”, diz Bignetti. O argumento, nesse caso, tem lá suas verdades. “A obra do Maracanã, estimada em US$ 300 milhões, já soma mais de US$ 500 milhões”, defende. Além disso, seja na Copa ou fora dela, os estrangeiros que vierem dos Estados Unidos para cá devem sentir alguma diferença no bolso, até na hora da alimentação. “Paga-se quase 13% a mais por um sanduíche Big Mac no Brasil do que no país de origem do produto”, aponta André.

Não que isso seja problema, afinal. Numa capital da dimensão de Porto Alegre, se o valor não agradar, há alternativas bem semelhantes em quase toda esquina. “Alguém aqui já provou bauru?”, questiona o professor Marcelo Fonseca. Para ele, a comida é um modo de compreender a vida. Parece estranho, mas faz sentido. “A globalização carrega em si uma visão cosmopolita, de homogeneização. Isso quer dizer que estamos comendo as mesmas coisas, que nos tornamos apenas consumidores e perdemos nossas individualidades? Não exatamente”, afirma.

“A comida”
, esclarece Marcelo, “reflete identidades e estabelece relações”. Durante pesquisa feita sobre o tema, o professor comprovou o que já sabia antes mesmo de começar: arroz com feijão é o prato do brasileiro. Uma de suas entrevistadas chegou a dizer: “No inverno, nós comemos arroz com feijão quase todos os dias. No verão, não é muito diferente, na verdade”. E os reflexos não são apenas nutricionais. É no horário das refeições que as pessoas passam tempo com a família, conversando e compartilhando planos: “A alimentação é uma forma mundana de preservar o nacionalismo e as tradições”.

E tradição é o que não falta no estado. Tanto churrasco quanto chimarrão são mais do que alimentos no sul do país. São cerimônias. Eles têm tanta importância para o povo gaúcho que já conquistaram o posto de símbolos regionais. “Não dizemos que vamos comer churrasco, dizemos que vamos fazer churrasco [...]. E o chimarrão, hábito típico de meios rurais, continua crescendo e se intensificando em centros urbanos”, diz Marcelo. Na visão dele, o que a globalização faz é fornecer recursos simbólicos que depois vão ser adaptados localmente, como uma domesticação.

O que não parece domesticada é a situação jurídica no país. “Gostaria de apresentar um bom cenário para vocês, mas receio não ser possível”, lamenta a professora Miriam Schaeffer antes de falar sobre as diferenças entre os sistemas legais de Brasil e Estados Unidos – a chamada Civil Law daqui versus a Common Law de lá. De acordo com a docente, companhias que pretendem fazer negócios em nações estrangeiras precisam compreender a estrutura judiciária a qual irão se submeter, a fim de se preparar para possíveis conflitos de jurisdição. “Nos Estados Unidos, os cidadãos têm o direito à apreciação de um juiz federal no caso. Aqui, nem sempre”, conta.


Com tudo isso, resta a dúvida: é possível, então, que Barack Obama tenha se enganado ao considerar o Brasil o país do futuro? Parafraseando o pesquisador Marcelo Fonseca, a resposta é: não exatamente. E por que não? Porque esta é a nação da esperança. Porque “há magia além do realismo fantástico”, garante Bignetti. E ele conclui: “Gostamos de manter contato com pessoas, de cordialidade e otimismo. Ainda acreditamos que somos o país do futuro, e vamos continuar acreditando! Temos multiplicidade de etnias e cores, fazemos novas amizades em dez minutos, e isso é mágico para nós. Adoramos cantar, festejar e dançar. E, sim, esta é a magia – nós somos um dos povos mais felizes do mundo”.


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