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02/01/2013 · 11:22
Promotoras do desenvolvimento
Universidades, aliadas com o poder público e iniciativa privada, podem transformar a matriz econômica local e criar novas oportunidades de trabalho
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Texto: Pablo Furlanetto
Imagens: Rodrigo W. Blum

Três engrenagens. É disso que um país precisa para se desenvolver completamente. Parece pouco, mas não é. Ciência, tecnologia e inovação necessitam, sempre, estar no mesmo compasso. Caso contrário, por exemplo, o Brasil continuará sendo um país exportador de matéria-prima, que será gerada, transformada em valor agregado lá fora e, depois, importada. Um caminho totalmente inverso. Em entrevista, o diretor da Unidade Acadêmica de Pesquisa e Pós-Graduação da Unisinos, Alsones Balestrin, fala sobre isso e, também, sobre o papel da universidade na promoção do desenvolvimento de uma região.


J.U - Qual o papel da universidade na promoção do desenvolvimento regional?
Balestrin - A universidade sempre teve um papel muito importante na geração do conhecimento. É a instituição clássica na produção e no avanço do conhecimento científico. No entanto, nos últimos anos se busca nas instituições de ensino e pesquisa um papel que vai além, ou seja, que esse conhecimento científico tenha também um papel importante no desenvolvimento de uma região, de uma nação, e, acima de tudo, na produção de riqueza de um país. Somente se avança com ganhos sociais a partir do momento que se tem um processo de distribuição de riqueza. A produção de riqueza de um país está com a base muito forte na indústria de base tecnológica. Isso tem uma relação forte com o papel da universidade, pois uma indústria inovadora depende muito do conhecimento gerado em um campus. As instituições de ensino superior, talvez como nunca antes, estão tendo uma função muito forte para o desenvolvimento social e econômico.



J.U - E esse desenvolvimento proporciona o que para a região?
Balestrin - Quando a gente fala em produção de conhecimento científico, temos que pensar que a universidade é composta por professores e pesquisadores. Essa reflexão é importante de ser feita. Muitas vezes, nós acreditamos que o papel de nossa atividade, enquanto pesquisadores, seja somente de gerar conhecimento. E o que se espera hoje é que o resultado do trabalho não seja somente a geração de conhecimento, mas que ele também gere desenvolvimento e riqueza por meio de sua aplicação.

J.U - Por que é importante que ciência, tecnologia e inovação caminhem juntas?
Balestrin - Ciência, tecnologia e inovação são engrenagens do mesmo sistema. Se uma delas não funcionar ou estiver frágil, o sistema não vai funcionar de maneira adequada. Não basta um país investir somente na produção de ciência, se a parte de tecnologia, que acontece em institutos tecnológicos mais avançados, ou inovação, que acontece na empresa, não esteja andando no mesmo passo.

J.U - E onde cada uma ocorre?
Balestrin - A ciência acontece dentro da universidade. A tecnologia ocorre dentro de instituições que têm a responsabilidade de aplicação. E a inovação acontece nas empresas, por meio de novos produtos e serviços. Então, se a universidade, os institutos tecnológicos, muitos deles suportados por iniciativas governamentais, e as empresas não funcionarem de forma muito ajustada, o sistema como um todo tem dificuldade de funcionar. Algumas universidades, mais empreendedoras, perceberam que têm um papel além da geração de ciência. Também compreenderam que são importantes no desenvolvimento regional, agindo nessas outras duas engrenagens, que antes talvez elas não tivessem tanta ênfase. Hoje, as instituições de ensino superior, além de atuarem na sua vocação de geração de conhecimento, de ciência, por meio da estruturação de programas de pós-graduação, em teses, dissertações e papers de inserção internacional, também agem na estruturação da tecnologia, por meio da organização de institutos tecnológicos, de laboratórios de pesquisa e desenvolvimento. Outro ponto onde as universidades vêm agindo é na criação de parques tecnológicos para atração de empresas, a criação de um locus, um ecossistema de corporações de base tecnológica, onde elas atuem fortemente na criação da inovação. Essas três engrenagens, que antes existiam de forma independente e cada uma com uma instituição responsável, recebem ação de algumas universidades, num espaço geográfico próximo e funcionando como um verdadeiro habitat de inovação. Isso acontece em boas instituições de ensino privadas e em algumas públicas. A Unisinos, por exemplo, tem na sua estratégia de atuação forte interlocução entre a pesquisa junto aos programas de pós-graduação, a criação dos institutos tecnológicos e do Parque Tecnológico São Leopoldo – Tecnosinos.

J.U - Por isso a importância do funcionamento das três engrenagens.
Balestrin - Claro, se uma delas estiver raquítica, o sistema não vai rodar. Isso acontece hoje no Brasil, ao menos é o que as estatísticas demonstram. As universidades brasileiras são muito boas em produzir ciência, na geração de pesquisa de artigos científicos indexados internacionalmente, onde estamos entre os 15 primeiros. Porém, na geração da inovação nós estamos abaixo da 40ª posição entre os países do mundo. Geramos conhecimento científico, mas temos dificuldade na aplicação do conhecimento, o que normalmente se dá em forma de patentes, de registro de propriedade intelectual. O Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI), nesse sentido, encontra-se desbalanceado e frágil.

J.U - Tem algum exemplo de universidade estrangeira que é modelo na aplicação desse conceito?
Balestrin - As instituições de ensino superior dos Estados Unidos e da Coreia do Sul. Elas estão muito mais próximas à geração de valor para o mercado e para a sociedade, transformando o conhecimento de forma aplicada e na preocupação com o resultado. Não é o caso de tirar valor ou reduzir a importância do papel da universidade na produção de ciência básica, mas sim uma preocupação muito grande das instituições de ensino para que isso realmente se transforme em algo que gere valor.

J.U - O que o Brasil ganha com a aplicação do modelo?
Balestrin - Como a produção da riqueza de um país é dependente de indústrias de base tecnológica, principalmente das que agregam muito valor aos produtos e serviços, uma nação que não tiver infraestrutura e capacidade tecnológica instalada acaba exportando matérias-primas para serem transformados em riqueza em outros países mais avançados. E o Brasil é um bom exemplo disso. Nós exportamos a maior parte dos produtos in natura, para terem o valor agregado lá fora para, depois, adquirirmos de novo. O Brasil é um dos maiores produtores de café. Exportamos in natura para a Nestlé produzir o Nespresso e importamos novamente as cápsulas. Certamente a riqueza que ficou no beneficiamento até ser colocado na cápsula foi muito maior do que na produção do grão aqui. Outro caso, nós exportamos o minério de ferro para a China e importamos o aço beneficiado. Exportamos a soja em grão e importamos a proteína. A riqueza dessa transformação, que é exclusivamente baseada em tecnologia e em conhecimento, está instalada lá fora e não aqui. A indústria brasileira tem avançado pouco nessa capacidade, a infraestrutura de pesquisa e de outros elementos não está dando conta disso.



J.U - E em quantos anos tu achas que isso pode mudar, levando em conta os movimentos recentes que algumas universidades estão realizando no sentido de fazer que aqui seja também um polo do conhecimento?
Balestrin - As universidades, de forma individual, não vão conseguir dar conta disso. É preciso ter um sistema regional e nacional de inovação, políticas públicas e governamentais, e que o país crie condições para que também as empresas se sintam incentivadas em investir em inovação, que as universidades se sintam estimuladas a fazerem com que o seu conhecimento chegue até à indústria e à sociedade. Isso é possível, o Brasil vem avançando nisso, mas precisa anda mais. Exemplos: a produtividade agrícola no país é uma das mais elevadas do mundo. Isso ocorre por causa de instituições como a Embrapa, que investiu muito em pesquisa aplicada. A indústria aeronáutica evoluiu. A Embraer está exportando aviões, porque existe o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que faz pesquisas avançadas e as aplica. É importante quando a gente coloca em sinergia universidades, que podem ter seus institutos de pesquisa, com entidades que já existem e com as empresas, fazendo com que isso seja um ciclo virtuoso. Aqui, as engrenagens estão ainda muito estanques.

J.U - O Tecnosinos é um bom exemplo da proximidade entre universidade, governo e empresas.
Balestrin - A Unisinos, e outras boas universidades, para criar um locus de inovação e fazer com que as três engrenagens rodem cada vez mais fortes e de forma sinérgica, teve a iniciativa de criar o parque tecnológico, juntamente com o poder público e as empresas da região. Também, vem com a criação dos institutos. É uma ação em hélice tríplice, entre indústria, governo e academia, para que se crie, dentro de um espaço regional, novas alternativas de geração e produção de riqueza para o estado. O Tecnosinos e os institutos tecnológicos estão sendo decisivos para a mudança da matriz econômica do Vale do Sinos. É a geração de um grande cluster de inovação local.


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