A situação complicada que toma conta do Timor-Leste não desanima o leopoldense André Rafael dos Santos, que dácontinuidade ao seu trabalho no país. André atua em Dili, capital do Timor, desde abril de 2005. Graduado em Matemática pela Unisinos e funcionário da universidade por 14 anos, ele foi escolhido entre 17 mil candidatos de todo o Brasil, para auxiliar na missão de reintroduzir a língua portuguesa no país. O gaúcho atua no Programa de Cooperação na Educação, em Dili.
Na última semana, André enviou um texto redigido no mês de maio, quando os conflitos do país estavam em seu auge. Os tumultos culminaram em dias de protestos nas ruas de Dili, promovidos por um grupo de militares (quase 600 homens) - mais de um terço do contingente militar timorense - expulsos (ou como diz o governo, afastamento administrativo, considerando-os civis) das Forças Armadas no último dia 1 de março.
Veja abaixo o relato na íntegra. Logo abaixo descritivo da situação atual.
Terça-feira, dia 27 de junho de 2006.
"Hoje, 25 de maio de 2006, quinta-feira, tomei café da manhã acompanhado de muitos tiros próximo de casa, pela primeira vez nesses dias. Vários e vários tiros!
Desde o mês de abril, especificamente dia 28, muito tem sido dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, com boas intenções sobre o Timor-Leste ou não. Isso tem contribuído para transmitir um clima de conflito e insegurança na região. Após praticamente um mês de conflitos nas ruas, fugas para as montanhas, tanto por parte dos revolucionários quanto por parte da população assustada e preocupada com um possível retorno das ações ocorridas em 1999.
A situação tem se agravado. O número de pessoas que têm passado para o lado dos rebeldes tem aumentado, os combates passaram a ser mais freqüentes e em zonas cada vez mais próximas da própria cidade de Dili. O governo já perdeu totalmente o controle da situação no país e pediu, ontem, quarta-feira (24/6) à tarde, apoio "urgente" a Portugal e Malásia para o envio de polícias, e à Austrália e Nova Zelândia pedindo tropas militares a fim de ajudar a estabilizar a segurança em Timor-Leste. Resolveram, finalmente, pedir intervenção militar no país.
Paralelo a isso, a Austrália começou a retirar todo o pessoal não-essencial residente em Timor-Leste, em reflexo ao agravamento da situação de segurança no país, marcada ainda pelo envio para alto-mar de dois navios mobilizados para eventual apoio à região.
Há várias semanas que a Austrália tem preparado uma força para um eventual destacamento em Timor-Leste, que inclui navios, aviões, helicópteros e soldados. Ontem, os dois navios que integrarão qualquer eventual missão, o HMAS Kanimbla e o HMAS Manoora, abandonaram respectivamente os portos de Darwin e de Townsville, seguindo para alto-mar em direção a Timor-Leste.
As Nações Unidas, por sua vez, declararam fase 2 de segurança que significa ir para a sede da ONU, no chamado "Obrigado Barrack", e também restringir os deslocamentos de seu pessoal dentro da capital. A possibilidade de evacuação do país é muito real neste momento e o destino natural seria a Austrália.
Todos os participantes do programa de cooperação CAPES/MEC estão bem, em suas casas e sempre em contato uns com os outros, apesar do clima de insegurança constante. Temos tentado trabalhar na medida do possível.
Digo na medida do possível porque nosso trabalho depende, em grande parte, de pessoas e isso é o que mais falta hoje por aqui, visto que os timorenses têm saído da cidade. De qualquer forma, uma parte do pessoal tem a tarefa de desenvolver o material didático para o nível pré-secundário do ensino timorense (equivale à parte do nosso ensino fundamental e médio) e é o que estamos fazendo, aproveitando o tempo. Quem trabalha na universidade tenta lecionar, mas faltam alunos e quando chegamos para trabalhar muitas vezes a orientação dos decanos das faculdades é retornar para casa. Não somos os alvos nessa briga interna, mas precisamos estar muito atentos aos acontecimentos."
Escrevi esse texto há um mês atrás. Exatamente um dia antes de fazer aniversário, dia 26 de maio, sexta-feira essa que passei sob muita tensão e também com alguma expectativa de ainda poder comemorar com colegas e amigos, no sábado seguinte, a data festiva. Nada feito!
A retomada dos problemas aqui na capital, Dili, ocorre em 23 de maio, uma terça-feira. O que restou do exército timorense dirige-se à capital no intuito de reprimir alguns focos de resistência dos militares rebeldes. No entanto, não se trata apenas do episódio dos militares demitidos das forças armadas no mês de março. Por trás disso existem questões mais profundas, questões de ordem étnica, onde as duas etnias que compõem essa nação iniciam um conflito sem previsão para acabar. Naturais dos 10 distritos mais ocidentais, os loromonu; provenientes dos restantes 3 distritos que formam o Timor-Leste, os lorosae. No meio dessa disputa interna de poder, estão os malaes (palavra que significa `estrangeiro’ na língua tétum).
O governo timorense não consegue lidar sozinho com a situação de caos instaurada na capital e regiões vizinhas. Chegam os reforços, forças internacionais bilaterais, no intuito de estabilizar a situação existente. Exércitos australiano e neozelandês espalhando-se pela cidade, navios de guerra ancorados no porto e também na baía, helicópteros portando mísseis enormes sobrevoando toda a capital, tanques de combate circulando nas principais ruas e avenidas. Para apoiar estes, chegam soldados da Malásia, em menos quantidade, porém, igualmente bem armados. Ao final, a polícia portuguesa, já conhecida aqui em Dili desde a época de colônia portuguesa, chamada GNR - Guarda Nacional Republicana, com fama de ser violenta e agressiva quando necessário.
A cidade, já deserta pois a população não retornara desde o episódio de 28 de abril, transforma-se num cenário de guerra. Dia e noite helicópteros, aviões de reconhecimento, tanques, carros de polícia e ambulâncias movimentam-se intensamente na capital. A princípio, não há perigo iminente para os estrangeiros residentes aqui. No entanto, após determinação das Nações Unidas, muitos de seus funcionários não-essenciais iniciam evacuação para Austrália, especificamente para a cidade de Darwin. Da mesma forma, sob orientação da Capes/MEC, dia 29 e 30 de maio, seguem evacuados também para Darwin, num avião militar australiano, todos os colegas brasileiros que fazem parte do programa de cooperação.
Permanecem em Dili, por acreditarem ser desnecessária, nesse momento, a evacuação do Timor-Leste, apenas 3 componentes do programa de cooperação brasileiro em educação. Um colega mineiro, uma colega paulista e eu. Permanecemos os 3, cada um realizando atividades de apoio que julgamos necessárias naquele momento.
Passados 15 dias retornam os colegas de Darwin, para engajarem-se em um novo trabalho que se configura nesse momento: ações emergenciais na área de educação nos campos de desabrigados e reativação das escolas da capital. É a realidade desse momento!
O Ministério da Educação do Brasil, através da Capes, atende a necessidade imediata e emergencial do governo timorense e mantém o programa de cooperação brasileiro ainda que desviado momentaneamente de suas atividades originais.
Paralelamente, grande instabilidade reside no governo do Timor-Leste, do qual já haviam sido afastados o ministro da defesa e o ministro do interior. A população, de maioria católica, não satisfeita, quer mais. Querem a saída do primeiro-ministro muçulmano Mari Alkatiri. A pressão é muito forte e ontem, dia 26 de junho, após mais alguns dias de grandes turbulências sociais, o primeiro-ministro admite afastar-se do poder. Horas antes deste anúncio demite-se o prêmio Nobel da paz, José Ramos Horta, ministro dos negócios estrangeiros e cooperação, seu colega a quem estamos subordinados aqui em Timor-Leste, Armindo Maia, ministro da educação, além do ministro dos transportes.
Estamos nesse momento vivendo uma situação política delicada. O presidente Xanana Gusmão, a quem o presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva enviou carta de solidariedade e compromisso da continuidade dos projetos de cooperação entre Brasil e Timor-Leste, aceita a demissão do primeiro-ministro e convoca para hoje reunião do Conselho de Estado a fim de avaliar uma possível dissolução do Parlamento.
Acompanhamos, atentos e trabalhando, o desenrolar de mais esse episódio na terra do Lafaek (palavra que significa `crocodilo’, em tétum).
André Rafael dos Santos