.Opinião

04/07/2013 · 18:10
De quem é a praça?
Decano da Escola de Humanidades da Unisinos faz uma reflexão sobre o momento do país
Tamanho da Letra
Texto: Adriano Naves de Brito
Imagens: Rodrigo W. Blum



Adriano Naves de Brito*

Leio em alguns textos ligeiros e em fluxo incontinente, como estão nesses dias as postagens nas redes sociais, que a meninada que foi para as ruas serve aos objetivos de fascistas e golpistas. Quem o diz são os que se perderam das massas e cuja perplexidade foi, num crescente, da indiferença à estupefação e, agora, ao patrulhamento ideológico. Não sabem o que se passa.
  
Depois que alguns milhares roubaram a cena dos movimentos organizados, as indagações se acumularam nas cabeças mal arejadas. Como chegaram em tão grande número? Vieram para nos dar apoio? Vieram se juntar ao movimento que organizamos? Estão nos seguindo? Parecem tão desarticulados. Não somos os líderes? Onde estão os líderes? Eles sabem o que querem?

A velha esquerda está mesmo perplexa e os eventos recentes lhe dão eloquentes motivos para a estupefação. As massas caminham sem ela, melhor, à frente. Quando se combatia a ditadura, a questão fundamental dos movimentos de oposição ao regime era fortalecer as entidades capazes de mobilizar as massas para irem às ruas e mudarem as coisas. Sem movimento organizado por entidades, ganhos políticos eram inalcansáveis. Pois as entidades e os partidos se articularam, veio a redemocratização do país e algumas reformas fundamentais até que a mediocridade política nos foi arrastando das esperanças de um Brasil moderno de volta ao pântano do Brasil das oligarquias. Oligarquias repovoadas, infelizmente, por muitos dos que articularam e lograram a reinvenção do país, mas que, para usar uma figura daqueles anos de chumbo, passaram a ver apenas a frondosa árvore do poder e perderam de vista a floresta dos anseios populares. O povo, então, encontrou outros meios de se expressar, e se as entidades ainda quiserem ser representativas, melhor ouvir que ele tem a dizer.

As tais entidades, de centros acadêmicos a partidos, têm agendas caducas e perderam a capacidade de se comunicar com a sociedade civil, sobretudo com os filhos da constituição de 1988. Mal chegados aos vinte anos, com uma agenda progressista, global, descomprometida com as ideologias à esquerda e à direita, a meninada quer um Brasil simplesmente melhor, mais eficiente, mais justo e com o qual se possa identificar. E quem não quer?

Quanto aos fascistóides, sim, eles estão por ai, como sempre, mas vieram agora os conservadores de esquerda. A praça, contudo, não é deles! A praça é do povo, como o céu é do condor. E a rede também! Se bem que disso Castro Alves ainda não dava notícia.

*Decano da Escola de Humanidades da Unisinos


Buscar
Edições Anteriores
Assine a Newsletter

Voltar
Rodapé - Links