Conheci o padre Bruno Jorge Hammes no início de 1990. Estava no penúltimo semestre do curso de Direito e me matriculei na disciplina Direito da Propriedade Industrial, na Habilitação Específica em Direito Mercantil. Aí começou uma sólida relação que perdurou por 15 anos, até sua morte no último dia 24 de dezembro.
Aprendi pouco a pouco a admirar o jeito sempre sincero do padre Bruno, como todos o chamávamos. Depois veio o curso preparatório de professores de Direito da Propriedade Intelectual, disciplina que pioneiramente ele conseguiu implantar como obrigatória na Unisinos, em 1992. Foram dois semestres e 100 horas de aula. Inicialmente, 44 interessados; posteriormente foram selecionados 18 que realizaram o curso, e ao final foram escolhidos quatro, após a apresentação de um \"trabalho de conclusão\": Ângela Kretschmann, Roque Stoffel, Terezinha Schneider e eu.
Muitíssimo do que sei de direitos intelectuais, aprendi com o padre Bruno, sem exageros. É verdade que algumas poucas vezes divergíamos, mas isso faz parte do salutar convívio entre mestre e discípulo.
Padre Bruno era um jesuíta autêntico. Não esqueço que, certa vez, lá no início, alguém lhe indagou se deveria chamá-lo de \"doutor\", \"professor\" ou \"padre\". - De padre - respondeu prontamente. - Acima de tudo somos padres - disse. Fazia questão de sempre enfatizar isso, como os votos que fez. Ainda, diariamente, rezava missa para as freiras de determinada ordem religiosa de São Leopoldo, cujo nome não recordo agora. Às seis horas da manhã.
Vindo da pequena Arroio do Meio, localidade de forte presença alemã, ordenou-se sacerdote em 8 de dezembro de 1958. Era padre jesuíta há 46 anos, portanto. Após viver em Curitiba, onde desempenhou importantes atividades, retornou a São Leopoldo para novamente exercer destacadas atividades que lhe foram delegadas por seus superiores até estabelecer-se em Munique, onde realizou seu doutoramento em Direito do Autor, de 1971 a 1975. Retornou à Unisinos, onde - além de Direito das Coisas - lecionava Direito do Autor, inicialmente como disciplina facultativa. Padre Bruno marcou importância nesta área. Seguramente era uma das maiores autoridades nacionais e latino-americanas em nossa área de atuação. Inseriu significativamente a Unisinos em destaque no mundo dos direitos intelectuais.
Outra curiosidade, que talvez poucos conhecem: certa vez, perguntei-lhe de onde surgira seu interesse pelos direitos autorais. Poderia ter ido à Europa doutorar-se em Direito Canônico ou Direito Civil. Respondeu que desde criança tinha especial predileção pelos autores, que nos elevavam para bem perto de Deus através da beleza de suas criações. Nisto reside que seu interesse acadêmico pela disciplina tinha direta relação com a fé católica que professava. Uma coisa relacionada à outra.
Foram 12 anos de trabalho docente sob orientação direta do padre Bruno. Inicialmente, lá em 1992, inclusive todas as Unidades que deveríamos trabalhar, eu os demais três colegas, foram cuidadosamente preparadas por ele. Em 1999, quando a colega Ângela Kretschmann foi para a Índia, somou-se a nós a querida colega Adélia Green Koff. Nestes anos todos fizemos várias reuniões de confraternização em nossas casas. Algumas foram realizadas na residência dos jesuítas, na serra de Morro Reuter, onde ele tanto gostava de se refugiar. O almoço era sempre precedido de uma missa que padre Bruno conduzia.
Em nossas reuniões no Núcleo de Direito da Propriedade Intelectual da Unisinos, sempre enfatizou que deveríamos nos preparar para seguir adiante sua missão no ensino dos direitos intelectuais. Logo que adoeceu, em setembro, em uma das primeiras das tantas visitas que lhe fiz ,neste difícil período de três meses, alertou que sempre dizia que \"um dia iria...\". Se foi. Deixou em nós grande vazio, mas a imensa vontade de fazer jus ao privilégio de um dia termos sido seus aprendizes.
No último ano, além das professoras Ângela, Adélia e eu, o Núcleo era também composto por Eugélio Luiz Muller, João Henrique Rudiger, Liz Sass e Melissa Marin.
Sequer pude concluir minha tese de doutorado, sendo ele meu orientador. Indiscutivelmente será dedicada a ele, no qual vou buscar inspiração e força neste difícil período que agora reinicio.
No dia 18 de dezembro, data em que completou 78 anos de idade, após a aula no intensivo de verão da Unisinos, fui visitá-lo, em torno de 11h30min. Levei o exemplar de número 99 da Revista Estudos Jurídicos da Unisinos. Ele foi editor do número 23 ao 99, por cerca de 30 anos. Disse-lhe que era o editor, e estávamos chegando ao número 100. Correram algumas lágrimas de seus olhos, que prontamente secou com uma pontinha do lençol. Disse-lhe que voltaria no Natal para visitá-lo. Faleceu antes, na véspera, nascendo para uma nova vida, que Jesus Cristo representa.
Foram três décadas de dedicação à pesquisa e ensino dos direitos intelectuais. Centenas de orientações de trabalhos de conclusão de curso. Dezenas de orientandos no mestrado em Direito na Unisinos. Atualmente, além de mim, tinha outros três orientandos no doutorado em Direito na Unisinos. Dezenas de artigos, dois livros e centenas de palestras. A própria Organização Mundial da Propriedade Intelectual várias vezes fez especial deferência à Unisinos, algumas quando para cá trouxe seminários internacionais na área. Em outra, quando em 2001 recebeu 23 alunos e seis professores do curso de Direito da Unisinos em Genebra para estudarmos direitos intelectuais, em uma situação até então inédita. Antes, somente uma universidade alemã havia obtido tal possibilidade.
Indiscutivelmente tudo se originou do trabalho silencioso, discreto e obstinado do padre Bruno. Alguns perderam um orientador, o mestre, o amigo, um colega. Nós perdemos tudo isso. Mas, permitam-me, perdemos um pai...
Padre Bruno, resta neste momento agradecer-lhe, como já fiz em trabalho que lhe apresentei, por nos fazer ver que sua missão poderia ser também a nossa. Sei que era avesso a formalidades e homenagens. Mas esta era necessária. Já a realizamos em vida. Trabalhou tanto pelos autores e pelos inventores. Que Deus, autor de toda vida e inventor de tudo que é bom, o receba no esplendor indescritível da vida eterna.