* Este é o texto integral produzido pela professora Ieda Rhoden para a página Debate, da edição de maio do J.U. impresso
Ieda Rhoden é psicóloga, especialista em Psicologia Social, mestre em Administração, doutoranda em \"Ócio e potencial humano\" pela Universidade de Deusto, na Espanha
1) O que é ócio humanista?
Já meparecedifícil definir o que éócio, quanto maisdefinir ócio humanista...
Existem múltiplas visõespossíveisa respeitodo que seja o ócio, algumas delas complementares e outras antagônicas. Por exemplo, oócio definido comouma atividade específicalimita o fenômeno auma circunstância aparente. Já o ócio definido como tempo livre separa os tempos humanos e sociais em tempo livre e tempo não-livre.A partir desse conceito há um tempo de ócio e um tempo de obrigações, onde paramuitas pessoasse insere o trabalho.
Mas o ócio pode também ser entendido como um fenômeno psicossocial ou uma experiênciahumana comdeterminadas característicasde natureza subjetiva. Pesquisas recentes na área de Psicologiae Sociologiatêm tentadodescrever tais características: percepção de liberdade, motivação intrínseca, desfrute, desenvolvimento pessoal, sentimentos de renovação,atenção concentrada na experiência etc.
Sendo assim,qualqueratividade ou tempo pode ser ócio, desde que seja percebido pelo indivíduocomo tal. Entretanto, nemtoda atividadeoutempo podem ser consideradosócio humanista.
Para receber este \"sobrenome\" a experiênciaterá que, necessariamente, ter um caráterhumanizador, isto é, deverá contribuir para o aperfeiçoamento do indivíduo e oudo grupo; deveráser facilitador de umdevir humano caracterizado pela inteireza e conexão com o todo (consigo mesmo, com o outro,com o ambiente e com a vida).
O ócio humanista, portanto, é uma experiênciasubjetivacarregada de uma ética ede uma estética favoráveis àqualidade de vida, oque se traduz operacionalmente em mais saúde física e mental e desenvolvimento humano individual e oucomunitário.
2) Há diferença entre ócio e lazer?
Emboraempiricamenteseconsidere o lazer como oespaço privilegiado do ócio, na realidadeo lazer émaisum conjunto de atividades realizadas num tempo de não-trabalho, que facilita, mas não garante aexperiência de ócio.
Um lazercaracterizado pelo ativismo ou pelo consumismo dificilmente será uma experiência de ócio humanista. É mais provável que adquira a forma de uma experiênciade estresse.
O desafio está emdar-se conta das reais necessidades de cada um em termos de\"descanso,desfrute e desenvolvimento\"e buscar no espaço do lazer o equilíbrio entre estes trêsaspectos constituintes do óciopara Dumazedier.
3) O trabalho é lugar de ócio?
Para responder a esta questão deveríamos nos perguntarprimeiro seo trabalho pode ser percebido como um ato livre,como umexercício daautonomia humana (numavisãohumanistaexistencial),se pode sermotivado independente de recompensas externas ou posteriores a suarealização,se pode sergerador de prazer e desfrute...
Do ponto de vista psicológico, sempre e quando o trabalho tenha essas características na percepção do sujeito, poderá ser lugar deócio, sim.
A questão que se colocaé quea atual realidade social edo trabalhonão possibilita, para a maioria das pessoas, serautônomo, criativoe principalmente respeitar os tempos internos. E não é maiso sistema de organização do trabalho ou de gestãoquenega a liberdade ou que limita o potencial criativo. (Os trabalhadores estão sendo, cada vez mais, convidados a participar e aimplicar-se na tarefa eno projeto da empresa como um todo.)
O problemaparece estarna velocidade destas proposições e na quantidade e diversidade de estímulos (informações), que levamos indivíduosa viver num ritmo artificial e em permanente estado de insegurança.
Neste contexto, o ócio humanistatem dificuldade de encontrar lugartanto no trabalho, como no lazer.Pessoalmentecompartilho das idéias de Csikszentmihalyie de Maslow, no sentido de acreditar que o lugar por excelência de um ócio humanistaé a consciênciaauto-realizadora ou, em outras palavras,a consciência das pessoassintonizadascom o processo de evolução e desenvolvimentohumano e social.