Carlos Alberto Gianotti
* Professor de física, diretor da Editora Unisinos gianotti@luna.unisinos.br
O tema da transdisciplinaridade passou recentemente a objeto de intensa consideração pela universidade brasileira: apresenta-se no debate acadêmico e até livros de autores locais a respeito já se podem encontrar.
Faz pouco, assisti a uma entusiástica palestra sobre o assunto. Lá pelas tantas, o conferencista indagou do auditório: \"- Por que e como ser transdisciplinar?\" Pude notar que nem o perguntador nem os perguntados chegaram a esboçar resposta confiável. Mais tarde, em casa, surpreendi-me a conjeturar: por que e como ser transdisciplinar? Realmente, dá o que pensar.
Se a pergunta tem respostas objetivas, é-se levado a crer que 1) há motivos, ainda que não bem entendidos, para se ser transdisciplinar e que 2) a transdisciplinaridade se constitui num modo de proceder acadêmico, numa metodologia, isto é, pode-se aprender a ser transdisciplinar, desenvolve-se esta capacidade. A partir do momento em que se a adquire, está-se autorizado a afirmar: sou um(a) professor(a) transdisciplinar. Bastaria o aprendizado. Como presumem que seja recomendável manter uma \"aparência transdisciplinar\", muitos, sem mais perda de tempo, já tratam de se intitular \"trandisciplinares\", um verdadeiro Fiat lux! na academia.
Entretanto, poder-se-ia pensar que \"ser transdisciplinar\" é quase uma condição adquirida com o passar de muitos anos, não por injunção, mas mediante o estudo paciente e cuidadoso, a leitura solitária e silenciosa, a reflexão que leva à confrontação de idéias, a conversa com os demais, a visita a museus e a exposições de artes plásticas, a audição musical, a participação em congressos, enfim, por meio de todos os elementos que formam o espírito humano. Ora, por exemplo, um matemático brasileiro que tenha lido, entre outros, Robert Musil, Martins Penna, Nietzsche, Edgeworth, Eça, Montaigne, J. Conrad, Spengler, Russel, Peirce, Freud e Pessoa, terá uma visão mais abrangente de seu universo de pesquisa do que outro matemático que desconheça autores como os citados; este carecerá da formação essencial que lhe impulsione a ir além e realizar interações, enquanto que aquele \"será \'naturalmente\' transdisciplinar\", procederá sempre \"transdisciplinarmente\" em suas pesquisas e com seus alunos. Quem apenas sabe muito de nada, vê pouco à frente. A transdisciplinaridade desenvolve-se por meio dos que portam aquela condição que se formou com o refinamento intelectual. Segundo essa acepção, a transdisciplinaridade não será algo que se aprenda, se opte por ela ou se possa impor: acontecerá, genuinamente, a partir dos que formaram - e apenas deles - aquele background. Assim, uma instituição será percebida como uma composição transdisciplinar se seus docentes, intrinsecamente, forem dela portadores.
De resto, transdisciplinaridade não é algo do hoje ou do amanhã, eis que sempre esteve aí - não terão sido \"transdisciplinares\" os melhores pensadores desde tempos recuados? Alguns afirmam que se trata apenas de mais uma moda acadêmica. Diria que não é voga: o moderno é falar em transdisciplinaridade. O homem, desde sempre, carece das palavras para empanar as suas dificuldades, as suas impotências, os seus erros. Palavras servem, de certa forma, como lenitivo para mitigar as amarguras que nos afligem por não sabermos como agir ou por não compreendermos o que acreditamos ver. Talvez a nossa incapacidade de acompanhar os avanços da tecnociência e o nosso mal-estar com o número crescente dos que sabem muito de nada, venham deixando-nos irrequietos. Restam-nos as palavras, o consolo dos aflitos: preciso atravessar muitas disciplinas, indo mesmo além da que professo, para entender melhor tudo isso: tenho de ser transdisciplinar!