.Opinião

23/06/2004 · 16:50
A Unisinos e os 180 anos da Imigração alemã
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Texto: Arthur Blasio Rambo


A imigração alemã e as raízes remotas daUniversidade do Vale do Rio dos Sinos se confundem. Na década de 1860, a imigração alemã contava com mais de30 anos de história no Rio Grande do Sul. As comunidades formadas pelos imigrantes consolidavam-se rapidamente. Não poucas exibiam um visível progresso, sinalizando para uma relativa prosperidade, tanto no setor agrícola como do comércio.

Os imigrantes alemães e seus descendentes de primeira geração prosperavam, porém, à margem da real hegemoniaeconômica e do poder político, concentrados nas mãos dos estancieiros e empreendedores luso-brasileiros. O momento obrigava a pensar seriamente em construir pontes capazes de superar as barreiras étnicas entre os imigrantes alemães e os lusos e açorianos, além de oferecer aos alemães viasde acesso ao grande comércio, à participação na vida cultural, ao ingresso na burocracia oficial, à vida clerical, ao exercício do magistério, às carreiras oficiais da magistratura, do funcionalismo público e, principalmente, a uma participação efetiva nas decisões políticas.

Nesse cenário surge a figura do P. Feldhaus, recém-chegado da Alemanha. Sem tardar compreendeu a situação e, sob sua liderança, fundou-se, em 1869, o Colégio Nossa Senhora da Conceição em São Leopoldo. Inicialmente pensado como instituição para formar o clero nativo e os professores para atender às escolas comunitárias, a partir de candidatos oriundos do meio colonial alemão, não tardou para franquear o acesso aos filhos de luso-brasileiros e açorianos. Paralelamente uma segunda medida foi decisiva. Em poucos anos a instituição conquistou tamanho prestígio que, em 1890, obteve a equiparação ao Ginásio Nacional D. Pedro II e, com isso, seus egressos estavam habilitados a freqüentar faculdades. Durante os 40 anos do seu funcionamento (1869-1912), passaram pelas suas salas de aula dezenas de personalidades que marcaram época no âmbito do comércio e da economia em geral, na docência em todos os níveis, nas profissões liberais, nos quadros das forças armadas, na administração pública, na política e diplomacia, inclusive a nível internacional.

Por lhe ter sido tirado a condição de \"equiparado\" ao D. Pedro II, pela Lei Rivadavia, o Conceição encerrou, em 1912, suas atividades em São Leopoldo. Um ano depois, 1913, o arcebispo D. João Becker, ex-aluno do Conceição, confiou aos jesuítas alemães a formação do clero da arquidiocese. Não tardou para que candidatos ao sacerdócio de todo o país e várias ordens religiosas, inclusive os jesuítas, buscassem sua formação no agora Seminário Nossa Senhora da Conceição, nas faculdades de Filosofia e Teologia. O nível dessas faculdades não ficava devendo nadaàs instituições similares da Europa. Centenas de sacerdotes diocesanos e regulares e dezenas de bispos, um deles cardeal e arcebispo do Rio de Janeiro, tiveram nelas a sua formação filosófica e teológica. Embora não oficialmente reconhecidas, as Faculdades de Filosofia e Teologia foram os primeiros cursos superiores que os jesuítas alemães implantaram no Sul do Brasil e, por isso, pede a justiça que sejam vistas como ponto de partida a partir da qual seria concretizado o projeto da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Bastou obter, em 1953, o reconhecimento oficial da Faculdade de Filosofia por parte do Ministério da Educação, para dispor-se da base legal oficial, conferindo legitimidade ao ensino superior, cujas raízes devem ser procuradas em 1869,135 anos passados, no contexto da região colonial formada pelos imigrantes alemães e seus descendentes de primeira e segunda geração. Em cinco décadas, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos se transformou no pólo irradiador da cultura e da formação humanística e tecnológica mais importante na mais antiga região colonizada pelos imigrantes alemães.


Comentários

Ricardo Söldon | 26/07/2007 | 20:11
Muito bom artigo, e necessario resgatar essas memorias. Estou fazendo justamente, uma dissertação sobre escolas etnicas dos imigrantes alemaes. ?O problema e que estou encontrando enorme dificuldade em obter informações sobre elas. As pessoas ainda tem medo da época de ?Getúlio. Gostrair de saber se seria possivel me enviarem fotos, de cartilhas, cadernos etc da epoca ate 1939. Gostaria de poder ir a São Leoplodo porem moro no Rio de Janeiro e fica no momento dificil.Tenho já em maos artigos do Lúcio Kreutz que tem me ajudado muito. atenciosamente, Ricardo B. Söldon

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