A Unisinos acaba de lançar o Fórum de Inteligência Competitiva do Agronegócio do Rio Grande do Sul, o FICA/RS, que reforça o programa do MBA em Economia e Gestão dos Agronegócios da universidade, cujas inscrições abrem em dezembro (2004). Este movimento visa o fortalecimento desse segmento que representa muito para a economia e o conjunto da sociedade gaúcha, brasileira e por que não dizer, latino-americana. Neste sentido, a universidade, mais uma vez, não se furta de se engajar neste compromisso, até porque, o seu envolvimento com este segmento econômico faz parte de sua história. Vou citar alguns momentos marcantes na história deste Rio Grande e que expõem tais evidências.
A vocação missioneira
De acordo com a diocese de Pelotas, tudo começa por volta do século XVII, quando em 1626 o Pe. Roque Gonzales de Santa Cruz atravessa o rio Uruguai para iniciar os primeiros aldeamentos no atual Rio Grande do Sul, fundando São Nicolau, \"a primeira querência do Rio Grande\". Esse movimento retrocede, em função das resistências locais, sendo somente retomado em 1682, dando início às reduções guaraníticas. Neste meio tempo, o gado trazido no 1º ciclo missioneiro pelo Pe. Cristóvão de Mendonza havia se reproduzido extraordinariamente e ocupava as Vacarias do Mar e os Pinhais, em campos abertos. Seria, na época, a base da alimentação dos povos indígenas.
O espaço missioneiro assimilou a experiência dos padres jesuítas, de diferentes formações e nacionalidades com o conhecimento da natureza, parte dos costumes e o modo de ser guarani, num processo de aculturação que moldou características próprias. A contribuição cultural guarani se deu nas formas de apropriação da agricultura, na economia da reciprocidade e no espírito religioso. Tradicionalmente agricultores, participaram na diferenciação dos meios de produção: O Tupamba\'e - Propriedade de Deus, que era o campo comum que se destinava ao sustento das viúvas, crianças e doentes. Incluía as estâncias e os ervais que eram destinados ao pagamento de tributos ao Rei, aos gastos administrativos e aos bens usados nos cultos religiosos e nas festas. O Avamba\'e - Propriedade dos homens, e destinava-se ao cultivo para subsistência individual.
Os índios trabalhavam em dias alternados nos dois territórios. Desta forma, tais reduções floresceram maravilhosamente, atingindo seu maior índice populacional com 39 mil pessoas. Entretanto, em 1750 , através do Tratado de Madrid, Espanha e Portugal resolvem trocar a Colônia do Sacramento pelos Sete Povos das Missões, com o obrigatório abandono das terras e casas por parte de todos os índios deste lado do rio Uruguai. Os missioneiros se rebelaram e ofereceram resistência. As duas coroas se uniram e na Guerra Guaranítica (1754-1756) dizimam os agricultores guaranis. Desta forma, a experiência da Província Jesuítica do Paraguai foi interrompida com a expulsão dos padres da Companhia de Jesus em 1759.
A vocação educacional e formativa
A restauração da Companhia de Jesus e o trabalho dos Jesuítas no sul do Brasil somente são retomados por volta de 1842, com a chegada de alguns padres espanhóis vindos da Argentina, atuando em missões populares, fundando paróquias, colégios, centros de pesquisa, centros de formação pastoral, casas de retiro, o que vem a culminar com a fundação da Universidade Vale do Rio dos Sinos, em 17 de maio de 1969.
A vocação pela organização social, através do cooperativismo
Neste mesmo período, em 1849, chegam os padres alemães para trabalhar com os imigrantes da Alemanha. Em 1900, o Pe. Theodor Amstad, coordena a fundação da Primeira Associação de Agricultores em Santa Catarina da Feliz, que por sua vez fundou a Primeira Cooperativa de Crédito do Brasil, em 1902, no município de Nova Petrópolis, na Linha Imperial. Embrião do cooperativismo no Brasil.
Em agosto de 1976, a Unisinos, impulsionada pelo seu compromisso permanente com o desenvolvimento regional cria o Curso de Especialização Superior em Cooperativismo - CESCOOP, pós-graduação lato sensu, que atualmente está na sua 27ª edição e que representa a formação de mais de 600 pessoas.
A vocação por uma visão antecipadora
Em agosto de 1974, portanto, há mais de 30 anos, um dos maiores pensadores do agronegócio latino-americano, Pe. Roque Lauschner, introduz em sua obra: Agro-industria y desarrollo economico\", escrita em Santiago do Chile, as seguintes preocupações: \"A finalidade do presente trabalho é proporcionar alguns subsídios teóricos para o desenvolvimento rápido e auto-sustentável dos países do Terceiro Mundo e para o desenvolvimento das regiões postergadas dentro das fronteiras de um mesmo país. Este problema passa pela adequação da relação agricultura e industrialização. Como solução parcial do problema, nossa conclusão rechaça as categorias contrapostas de \"setor primário, secundário e terciário\" e aceita uma concepção orgânica e integrada, onde os três segmentos estão presentes em uma única entidade econômica. Desta forma, consideramos uma só entidade econômica todas as funções e atividades que constituem o setor de insumos agrícolas, o setor de produção agrícola em si, o setor de industrialização e todo o setor de distribuição do produto agrícola. Comparamos o valor gerado em cada uma das fases da produção e transformação do produto agrícola até chegar o consumidor final. Partimos, portanto, não de desenvolvimento da agricultura e sim de uma concepção de desenvolvimento do complexo agrícola, ou de agribusiness, segundo a definição da Universidade de Harvard.\"
Mais adiante conclui, que \"depois da industrialização do petróleo e sub-produtos, o segmento de industrialização agrícola e de agroindústrias é o que mais dinamiza toda a economia por unidade de inversão, desta forma, fica definida que a principal alternativa de inversão para os países em desenvolvimento seria a inversão das agroindústrias como dinamizadoras do complexo agrícola e para a promoção rápida do desenvolvimento econômico global.\" (Pe. Roque Lauschner, Santiago do Chile, agosto de 1974, livre tradução)
Mas nosso saudoso Pe. Lauschner não foi somente um homem de idéias. Seu pensamento e ação para o desenvolvimento do agronegócio no Rio Grande do Sul resultaram em ações concretas. No apogeu do Sistema Fecotrigo, juntamente com a Fidene/Unijuí, ele foi um dos articuladores para a criação da Centralsul, visando a industrialização de todo o agronegócio, passando pelos insumos, indo à transformação da soja, incluindo o domínio de canais de escoamento e distribuição.
Na mesma época, também inspirou às cooperativas gaúchas, na fundação, em 1976, da CCGL - Cooperativa Central Gaúcha de Leite Ltda., que aproximadamente durante 20 anos tornou-se responsável por mais de 70% do leite coletado no estado. Neste período, o cooperativismo agropecuário foi responsável por 90% do capital social, 88% do patrimônio líquido e mais de 95% das receitas do sistema cooperativista como um todo.
Um pensamento à frente do seu tempo
Ou seja, Lauschner antecipa o que vem a se concretizar quase 20 anos depois, com o apogeu da visão sistêmica do agronegócio brasileiro, quando outro grande titã da nossa economia agrícola, o Sr. Nei Bitencourt de Araújo, mobiliza e lidera um grupo de empresários, produtores, distribuidores, agentes financeiros, e acadêmicos a fundar a Associação Brasileira de Agribusiness - ABAG. Foi em 1993, com o intuito de promover o desenvolvimento sustentado; a integração à economia internacional; a melhoria da distribuição de renda, através da desconcentração de pólos de desenvolvimento e; a preservação do ambiente.
Missão e visão estratégica contemporânea
A Unisinos, através de sua Missão, que é de promover a formação integral da pessoa humana e sua capacitação para o exercício profissional, incentivando o aprendizado contínuo e a atuação solidária para o desenvolvimento da sociedade; definiu em seu Mapa Estratégico, elaborado ao longo dos últimos anos, priorizar o desenvolvimento de alguns pólos regionais de desenvolvimento, dos quais, destacam-se: os pólos de alimentos, tecnologias biobaseadas, turismo, informática e comunicação. Desta forma, a universidade pretende consolidar o que definiu como Movimento Unicidade, sendo este, a base de seu compromisso maior para com o seu entorno, ampliando o conjunto de suas ações a serviço da sociedade da qual faz parte.
Por que o segmento do agronegócio?
De acordo com último relatório da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), o PIB da agropecuária, considerando a produção \"dentro da porteira\", deverá crescer 4,2% em 2004. Já, o conjunto do agronegócio, que envolve também os setores de insumos, distribuição e indústria ligadas à atividade rural, apresentará elevação do PIB em 3,2% no período. Dessa forma, estima-se que o PIB do agronegócio alcance o montante de R$ 524,8 bilhões este ano, contra R$ 508,27 bilhões, em 2003. O PIB da agricultura é estimado em R$ 97,78 bilhões, e o da pecuária deve alcançar R$ 67,14 bilhões. Este segmento é responsável por boa parte do superávit da balança comercial, da geração de renda e, portanto, do equilíbrio macroeconômico do país.
Com relação ao desempenho econômico do Rio Grande do Sul, a economia gaúcha cresceu cerca de 4,7%, em 2003, segundo estimativa da Fundação de Economia e Estatística (FEE), avaliando o PIB do Estado em R$ 130,7 bilhões. Cabe ressaltar que boa parte deste desempenho ocorreu devido ao crescimento do setor agropecuário, que teve um incremento de 18,5% neste período. A indústria apresentou uma variação positiva de 2,9% e o setor de serviços, de 1,7%. De acordo com o atual governador gaúcho, Germano Rigotto, graças ao agronegócio, o Rio Grande do Sul conseguiu crescer em um ano em que a economia esteve desaquecida, representando 8,4% do total de riquezas geradas no Brasil.
Um projeto construído no coletivo
Diante destes números e do tamanho do desafio que representa sua progressão daqui para frente, a Unisinos tem a plena consciência de que isolada não cumprirá sua função de ser articuladora do desenvolvimento regional. Logo, torna-se absolutamente imprescindível a ampliação, o aprimoramento, e a consolidação de profícuas e duradouras parcerias estratégicas.
Neste sentido, o Fórum de Inteligência Competitiva do Agronegócio do Rio Grande do Sul (FICA/RS), que estará integrado ao MBA em Economia e Gestão dos Agronegócios da Unsinos, respeita rigorosamente tais princípios. Para tanto, estamos iniciando este estratégico projeto em parceria com o PENSA (Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial), da Fundação Instituto de Administração (FIA), da USP. O PENSA foi criado em 1990, tendo como missão: criar um espaço interativo entre alunos, professores e lideranças do Agribusiness nacional, por meio da pesquisa, ensino e extensão. Sua metodologia de trabalho fundamenta-se na análise sistêmica dos negócios agroalimentares, focalizando especialmente as interfaces de seus diversos segmentos (pesquisa, insumos, agropecuária, indústria, distribuição, consumo). Esta abordagem reconhece a dinâmica própria de cada um dos setores e as limitações impostas pelas suas inter-relações tecnológicas e econômicas. A metodologia é complementada por dois princípios: a análise das questões que circunscrevem o processo decisório das organizações e a preocupação em aproximar a universidade do meio empresarial.
Não menos importante, o outro parceiro surgiu de uma excelente viagem de alguns empresários gaúchos ligados ao agronegócio à Holanda, na qual a Unisinos fez parte, a convite da FIERGS, coordenada pelo Centro Internacional de Negócios da Fiergs (CIN-RS) e pelo escritório local do Netherlands Business Support Office (NBSO). Lá pudemos verificar o que significa a tenacidade e competência de um bravo povo, fortemente identificado com o agronegócio mundial. A Holanda, país de 4 milhões de ha e cerca de 1/3 destes abaixo do nível do mar, produz alimentos em metade de todo o seu território, contando inclusive com seus 10 mil hectares de estufas, com climatização controlada. É atualmente considerada um dos maiores exportadores de agronegócios do mundo, tendo como principais características, o alto valor agregado de seus produtos e o perfeito conhecimento dos canais de distribuição dos principais mercados mundiais, desenvolvido desde os tempos da famosa Cia das Índias.
Apesar da importância destes parceiros, não nos restringimos a eles, estamos em avançada negociação com representações dos principais agentes da cadeia produtiva, tais como a Farsul, através da Casa Rural, a Fiergs, a Feocoagro e outras. Também contamos com diversos colaboradores dos diferentes centros de pesquisa e edução do estado, tais como a UFRGS, através do CEPAN e do PGDR, a UFPel, a UPF, a Unijuí e a Unisc. Finalmente, iniciamos tratativas com o governo do estado, através da Secretaria de Ciência e Tecnologia e da própria Caixa RS, instituição de fomento ao desenvolvimento do governo gaúcho.
Em recente encontro do Projeto Rede de Inovação e Prospecção Tecnológica para o Agronegócio, promovido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (CT-Agronegócio/FINEP), um seleto grupo de pesquisadores e demandadores de pesquisa elegeram uma série de prioridades para investimento em C&T neste campo, passando por temas específicos como: biotecnologia, manejo de recursos hídricos, desenvolvimento de novos produtos e processos, tais como alimentos funcionais e fitoterápicos e outros. Mas é importante destacar que foi unânime a necessidade do país em promover o desenvolvimento de competências em gestão, legislação e adequação das cadeias produtivas, com vistas a incrementar nossa inserção junto aos mercados internacionais, de forma mais soberana e através de produtos de maior valor agregado, combatendo o protecionismo exacerbado ainda vigente.
Dada a contextualização histórica, reforço que a Unisinos não medirá esforços para cumprir com sua responsabilidade, resgatando o espírito emancipacionista, tão fortemente arraigado, desde os tempos dos primeiro missioneiros que nestes pagos aqui chegaram. Queremos que o Fórum de Inteligência Competitiva do Agronegócio do Rio Grande do Sul (FICA/RS) seja mais um marco histórico do compromisso que a universidade tem para com a sua terra e a sua gente. Que o Fórum e o MBA em Economia e Gestão dos Agronegócios da Unsinos venham contribuir com a necessária, urgente e permanente reflexão do desenvolvimento de projetos voltados à organização dos agronegócios do Rio Grande do Sul, auxiliando na construção de um mundo mais próspero, justo e solidário, em suma: sustentável.