.Opinião

29/09/2003 · 10:50
Machado de Assis: a reinvenção da vida e da literatura
A mente criativa do escritor, entre outras qualidades, destacam a grande obra de Machado, reconhecidamente um dos maiores do Brasil
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Juracy I. A. Saraiva
Pós-doutora em Teoria Literária pela Unicamp, professora e pesquisadora da Unisinos, autora de Circuito das memórias de Machado de Assis (Edusp/Unisinos, 1992)

1. Um expoente da literatura nos trópicos

Machado de Assis, o escritor brasileiro de maior destaque no século XIX, recebe, através da crítica internacional, o reconhecimento a que faz jus pela qualidade estética de sua obra. A genialidade do escritor brasileiro foi recentemente apontada por Harold Bloom, renomado crítico norte-americano, que o incluiu no que denominou um mosaico de uma centena de mentes criativas exemplares. A importância da obra machadiana no âmbito da literatura ocidental foi, igualmente, enfatizada por Susan Sontag, ensaísta e ficcionista americana, que destaca sua originalidade e lucidez, e por Alberto Manguel, autor de Uma história da leitura, que afirma ser Machado de Assis um dos maiores expoentes da literatura mundial. John Gledson, Jean-Michel Massa, Abel Barros Baptista, críticos de nacionalidade inglesa, francesa e portuguesa, também atestam os méritos da obra machadiana e defendem sua emergência no cenário internacional.

Nesse movimento de valorização inclui-se Carlos Fuentes que, ao situar a obra do escritor brasileiro no contexto da literatura ibero-americana, afirma: \"Machado de Assis é um milagre\". Segundo Fuentes, enquanto o desejo de independência e de afirmação da identidade nacional teria conduzido os demais romancistas do século XIX a negar o passado para poderem afirmar sua adesão aos ideais da modernidade, Machado teria se preocupado em recuperar os vínculos com uma tradição inaugurada por Cervantes. Ao recusar-se a aderir ao cânone realista, ele instalaria novo paradigma, instituindo-se em precursor da atual literatura americana, que privilegia a imaginação e o jogo lúdico da linguagem. Para Fuentes, a obra de Machado alcança o estatuto da genialidade porque \"é permeada por uma convicção: não existe criação sem tradição que a nutra, assim como não existe tradição sem criação que a renove\". Fuentes reafirma o posicionamento de outros críticos, entre os quais se situa Regina Zilberman, para quem \"o conhecimento da literatura do passado\" possibilitou a Machado de Assis o domínio de seus paradigmas, enquanto sua transgressão o levou a instalar nova concepção paradigmática.

A reinvenção do passado literário é, sem dúvida, assumida por Machado de Assis que expressa esse princípio estético na produção de suas obras, afirmação que pode ser comprovada pelo diálogo que Dom Casmurro estabelece com o Otelo de Shakespeare, diálogo que faz parte da significação da obra.

2. Dom Casmurro: a reforma dramática de Otelo

Março de 1900 registra o aparecimento, no Rio de Janeiro, de Dom Casmurro, cuja edição é datada do ano anterior. Neste romance, o narrador autobiográfico tenta reconstruir a vida pregressa para esclarecer as circunstâncias em que se encontra e para justificar decisões do passado. A motivação que leva Dom Casmurro a narrar sua vida - o fato de considerar-se vítima da traição adúltera - instala a hipótese do engano, fazendo com que o leitor se situe diante de um narrador que não merece confiança, mas que o envolve através do tom elegíaco de sua rememoração. O discurso memorialístico organiza uma narrativa fraturada e elíptica, que obriga o leitor a proceder a uma tarefa de deciframento.

Em seu relato, o narrador autobiográfico desenvolve a metáfora que integra a vida a outros universos sígnicos, estabelecendo equivalências entre a ópera, os livros e os indivíduos. O denominador comum entre a arte e a vida reside no fato de constituírem enigmas a serem desvendados ou textos a cuja leitura é preciso proceder. Narrador e leitor assumem, assim, comportamentos equivalentes: um, interpretando a vida; o outro, a narrativa que a reconstitui. Com efeito, para que possa desempenhar a atividade hermenêutica que formaliza a narrativa, o leitor deve perseguir o plano que a orientou e cuja base é um processo de mimetização, uma vez que a autobiografia se afirma como reflexo de outro discurso.

Esse processo se evidencia pelo estabelecimento de convergências entre Dom Casmurro e Otelo: no plano do vivido, Bento Santiago confunde-se com Otelo; no plano da produção memorialística, Dom Casmurro lê simultaneamente sua vida e a peça trágica. Ao compor o relato autobiográfico, Machado de Assis estabelece, portanto, semelhanças com o drama, embora vise, igualmente, à sua deformação.

Vários aspectos sugerem a similitude: o tema do ciúme e o do adultério; a semelhança na caracterização das personagens Otelo e Bento Santiago; a equivalência de situações; a reprodução de componentes essenciais do fenômeno trágico, entre eles a cosmovisão centrada no fatalismo e a crença em uma ordem preestabelecida, cujo rompimento gera o conflito.

Entretanto, as aproximações acentuam a transformação a que Machado submete a tragédia de Shakespeare: o modo dramático é narrativizado, e as ações são apresentadas sob a perspectiva do marido que se julga vítima do adultério. O centramento na subjetividade provoca conseqüências de ordem axiológica: o marido enciumado, narrando sua própria história, transforma a inocência em verdadeira culpa moral, procedimento de que resulta a incriminação de Capitu.

O ângulo subjetivo da avaliação e a recontextualização do trágico em um universo onde, segundo o narrador, predominam as encenações determinam a reavaliação de seu sentido: o trágico já não decorre, como em Otelo, do desconcerto entre verdade e aparência, mas da absoluta impossibilidade de alcançar a verdade sob a aparência, pois aquela nada mais é do que o resultado de interpretações.

Conseqüentemente, a projeção especular, ao incidir sobre o drama shakespeariano, mostra uma imagem fraturada, coincidindo o esfacelamento com a \"reforma dramática\" (D. C. - p. 883) sugerida pelo narrador.

O ato subversivo indica que Machado de Assis recupera o texto de Shakespeare para servir de base a um novo processo de construção: o drama trágico de Otelo é a superfície polida em que Dom Casmurro visualiza seu drama particular e íntimo, mas para dar-lhe forma é preciso desestruturar aquele. Logo, as semelhanças permitem enfatizar as diferenças que re-elaboram a tragédia, situando-a em um universo construído sobre a inconsistência da percepção subjetiva, o que aprofunda o dilema humano do eterno desconcerto entre o ser e o parecer e adensa o problema da interpretação.

O caráter imitativo e transgressor da produção de Dom Casmurro equivale à ação do leitor, que deve inverter o percurso do plano da execução e recuperar o Otelo, visualizando o texto machadiano como um artefato artístico que representa a vida e, simultaneamente, institui a reflexão sobre o modo de realizar a representação.

Dom Casmurro reafirma a concepção estética de Machado de Assis, segundo a qual a obra literária resulta de atividade crítico-avaliativa que inclui a relação dialógica entre textos, de modo a produzir-se a convergência entre o antigo e o novo, entre o passado e o presente. Situando-se como intérprete de seu tempo, o escritor se volta para a tradição literária e conjuga a interpretação da vida com a da literatura.

Referências bibliográficas
ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1986. v 1.
FUENTES, Carlos. O Milagre de Machado de Assis. Folha de São Paulo, São Paulo, Caderno Mais, 1 out. 2000, p. 6
ZILBERMAN, Regina. Memórias póstumas de Brás Cubas: diálogos com a tradição literária. Veredas - Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, Porto: Fund. Eng. Antônio de Almeida, v.1, 1998.


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