No debate historiográfico, há aqueles que defendem a idéia de que no Brasil jamais ocorreu um processo revolucionário. O termo revolução, então, se aplicaria àqueles momentos onde podemos verificar transformações estruturais, seja no âmbito social, no econômico e/ou no político. A independência dos Estados Unidos, em 1776, rompeu com a lógica mercantilista da metrópole-colônia ao propor que suas colônias fossem livres para estabelecer novas parcerias comerciais, colaborando para o surgimento da economia liberal. Na esteira dos acontecimentos, a Revolução Francesa (1789) renegou um regime de governo baseado no \"direito divino\" do monarca para adotar os princípios republicanos de \"liberdade, igualdade e fraternidade\" entre os indivíduos - do sexo masculino, deve-se lembrar. Nesses casos, ocorreram profundas transformações. Há aqueles que afirmam que a Guerra Farroupilha não pode ser chamada de revolução, pois ao final de quase uma década de confronto civil quase tudo permaneceu como antes da insurreição rio-grandense: a monarquia e a escravidão sobreviveriam por mais algumas dezenas de anos. Nem a chegada de Vargas ao poder, em 1930, poderia ser considerada revolucionária, uma vez que houve um reajustamento das oligarquias no corpo do Estado, quando velhas práticas político-econômicas do \"compadrio\" se normatizaram numa burocracia estatal.
Divergências à parte, o que podemos afirmar é que o processo iniciado em 31 de março de 1964 não teve nada de revolucionário. Embora o poder político tenha trocado de mãos - nesse momento, nas mãos dos militares - o status quo se manteve: os interesses das altas classes continuaram protegidos pelo Estado, inclusive com as velhas elites freqüentando os círculos do poder, pois se desalojava a \"ameaça subversiva\" das instituições nacionais. A sociedade permanecia alijada da \"construção da nação\", alienação agravada quando os direitos individuais foram violados pelos famigerados Atos Institucionais, que fecharam o Congresso Nacional e impuseram a censura. Aparentemente, os militares de hoje não entendem o acontecido como revolução, pois nos quartéis celebram o fato como \"Movimento Democrático de 64\". Revolução? 1º de Abril...
Via de regra, verifica-se um ponto comum nas ditas revoluções: a violência. O repúdio da população mundial aos atentados terroristas de certos grupos de radicais muçulmanos e às guerras imperialistas de George W. Bush nos faz crer que uma revolução não precisa ser violenta, com conflito armado e derramamento de sangue; apenas precisa provocar rupturas. Como fazer uma revolução em dias que todos suplicam por paz e amor?
Acredito que o caminho da revolução passe pela cultura e pela educação. A idéia não é novidade, basta lembrar que o regime militar perseguiu vários intelectuais e artistas. Mas cultura e educação com efetiva participação popular, respeitando a diversidade, característica tão peculiar do povo brasileiro. Desse modo, a educação patrimonial surge como alternativa de inclusão social. Os museus comunitários (como o de Santa Cruz/RJ e o que está se formando na região de Pelotas/RS), também conhecidos como ecomuseus, promovem educação patrimonial através da apropriação pelos indivíduos do patrimônio cultural tangível (prédios históricos, por exemplo) e intangível (memória, tradição). Procurando uma interação com a sociedade, a comunidade decide em conjunto o que é patrimônio e quais são importantes para o seu desenvolvimento. Isso é exercício efetivo da cidadania. Um dos lemas desses museus é \"administrar as mudanças\": uma vez de posse do patrimônio cultural, o indivíduo passa a ser agente produtor de cultura. Aqui, verificamos a possibilidade de transformações, de rupturas. Neste 1º de abril, fica o convite a todos: conheçam sobre educação patrimonial e participem desta revolução...