Ninguém vivo atualmente viu o último, ocorrido em 6 de dezembro de 1882. Não se trata de um eclipse total do Sol, nem do retorno de um cometa famoso, há muito aguardado. Ao amanhecer do próximo dia 8 de junho, os brasileiros poderão assistir a um trânsito de Vênus defronte ao disco solar.
Vênus é o segundo planeta em ordem de afastamento crescente do Sol. Sua órbita fica dentro da órbita da Terra. A cada 584 dias ele passa entre o nosso planeta e o Sol, uma circunstância conhecida como conjunção inferior. Entretanto, por causa da inclinação de 3,4 graus em relação ao plano da órbita da Terra (conhecido como eclíptica), na imensa maioria das vezes as posições de Vênus e do Sol não coincidem no céu. Quer dizer, visto da Terra, Vênus erra o disco solar, cruzando ao norte, ou ao sul dele, sem ser visto.
Contudo, quando Vênus se acha próximo do plano da eclíptica e alcança também uma conjunção inferior, acontece um trânsito. Durante algumas horas (6h12min, no caso do próximo dia 8), pode-se ver o planeta cruzando devagar em frente ao globo do Sol. Os trânsitos de Vênus tendem a acontecer em junho, ou então em dezembro, épocas do ano em que os nodos da órbita venusiana (os dois pontos de intersecção dela com a eclíptica) cruzam pelo disco solar. Os trânsitos possuem intervalos de recorrência de 8 e 121,5 anos ou então de 8 e 105,5 anos. Isto quer dizer que o próximo trânsito de Vênus depois deste ano acontecerá em 6 de junho de 2012. Depois disso, o próximo par de eventos só terá lugar em 11 de dezembro de 2117, e 8 de dezembro de 2125! E é bom lembrar que o trânsito de 2012 não será visível desde o Brasil!
Do ponto de vista histórico, os trânsitos de Vênus foram importantes porque permitiram aos astrônomos a medição da distância em quilômetros que separava a Terra do Sol (a chamada Unidade Astronômica). Esta informação, por sua vez, era de importância vital para conhecer as distâncias dos demais planetas ao Astro-Rei, pois a terceira lei de Kepler só permitia obter suas distâncias relativas, isto é, como múltiplos ou submúltiplos do valor da distância da Terra ao Sol. O primeiro a sugerir a utilidade dos trânsitos venusianos para calcular o valor da Unidade Astronômica foi o astrônomo inglês Edmond Halley (1656 - 1742).
O trânsito de 8/6/2004
O fenômeno deste ano será visível em praticamente todos os continentes da Terra, exceto na Antártida, na extremidade sul da América do Sul, na metade oeste da América do Norte, e em parte da América Central, incluindo o México.
No Brasil, só será possível assistir a parte final do evento, pois o Sol já nasce com o trânsito em andamento. Ele inicia às 02h13min29s (horário de Brasília, para um observador hipotético situado no centro da Terra), com o primeiro contato aparente de Vênus com a borda externa do disco solar. O segundo contato (pelo lado de dentro da borda), verifica-se às 02h32min55s. O meio do fenômeno ocorre às 05h19min44s.
Em Porto Alegre o Sol nasce às 07h16min. O terceiro contato (tangenciamento de Vênus com a borda interna solar no fim do trânsito) será às 08h13min25s. A partir deste momento em diante, será possível ver uma porção cada vez menor do disco de Vênus junto ao limbo solar até o seu total desaparecimento (quarto contato), às 08h32min37s. No terceiro contato a altura solar na capital gaúcha e região metropolitana será de apenas 9,9 graus, enquanto que no quarto contato o Astro-Rei já vai estar mais elevado (13,3 graus). A baixa altura angular vai exigir um horizonte leste-nordeste livre de obstáculos (o ideal seria situar-se à beira-mar, ou então em um lugar bem alto com boa vista para o nascente).
Devido ao grande tamanho angular de Vênus (58 segundos de arco), seus trânsitos podem ser acompanhados a olho nu. O planeta vai aparecer como um pequenino ponto preto sobre a imagem do Sol. Haverá outros pontos escuros, representados por manchas solares. As manchas, entretanto, permanecem fixas, enquanto Vênus se deslocará devagar. Quem usar lunetas ou telescópios poderá observar ainda o curioso fenômeno da gota negra, uma ilusão de óptica que acontece quando Vênus se aproxima da borda (ou limbo) solar: a imagem do planeta começa a deformar-se, iniciando pelo surgimento de uma espécie de cordão umbilical escuro, passando a assumir depois o perfil de uma gota de água, até que a imagem de Vênus se cole aos limites do disco solar.
Precauções
Devido ao brilho excessivo do Sol, é necessário providenciar uma proteção segura para os olhos. Como durante os eclipses solares, não são recomendados vidros enegrecidos, radiografias, nem negativos de filmes fotográficos. O melhor é usar uma lente de soldador número 14 (e somente esta), que se pode comprar nas ferragens e boas casas do ramo. Custa barato, é bastante prático, e pode-se guardá-la para futuros eclipses do Sol.
Para observar com instrumentos, a melhor técnica é a da projeção, onde a imagem do Sol é projetada numa cartolina branca. JAMAIS se deve olhar através do telescópio. Até mesmo a mira deve ser feita usando-se como referência a sombra do tubo do aparelho: quando ela for perfeitamente circular, o Sol estará apontado. Em caso de pouca experiência, é recomendável não tentar a observação com qualquer tipo de equipamento. A não observância das precauções recomendadas acima poderá acarretar lesões oftalmológicas irreversíveis, incluindo-se a perda parcial ou total da visão.
Veja nos arquivos abaixo relacionados:
Mapa com a região geográfica de visibilidade do trânsito;
Trajetória aparente de Vênus sobre o disco solar;
A evolução do trânsito em Porto Alegre e região metropolitana.