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20/01/2014 · 14:33
Além da tradução de números
Entender de economia dá ferramentas ao brasileiro para antecipar causas e efeitos das ações de gestão do país
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Texto: Pâmela Oliveira
Imagens: Aline Spassini

A balança comercial brasileira registrou o modesto superávit de US$ 2,56 bilhões em 2013. Embora esteja dentro do esperado e não represente, por si só, um problema para a economia do país, o saldo consiste no pior resultado dos últimos treze anos e significa uma queda de 86% em relação a 2012.

Tão logo foram divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), já no início de dezembro, os dados deram o que falar, e assim o fazem desde então. Entre os mais animados interlocutores, destacam-se os economistas – profissionais que entendem e tratam os números com a facilidade de quem soma um mais um.

Técnica e teoria

Um bacharelado nessa área, em geral, acaba ocupando o segundo lugar na formação acadêmica de alguém. Só depois de ter outro diploma na estante é que o brasileiro decide se dedicar aos números. “A economia lida com questões técnicas e, às vezes, parece uma carreira quadrada”, diz o professor Marcos Tadeu Lélis, dos cursos de graduação e pós na Unisinos. “Sua capacidade inferior de atração do jovem está vinculada à primeira impressão de não ser uma opção muito moderna.”



Para não iniciados, o economês – apelido do dialeto de entendidos na área – assusta mesmo. Toda aquela história de déficit, superávit e inflação parece grego para quem, com muito esforço, se lembra da fórmula de Bhaskara aprendida no Ensino Médio. E olhe lá. Tem gente que, até hoje, não encontra sentido nenhum em isolar o tal do x. Já aqueles que saem da escola certos de saberem para que serve a matemática e com, pelo menos, o mínimo de interesse por ela podem se considerar pessoas de sorte: trabalhar com o mercado da economia dá mais do que status ao profissional; dá rentabilidade.

Segundo o professor André Azevedo, também dos cursos de graduação e pós da Unisinos, com mestrado na área, a média salarial se situa acima de R$ 5 mil ao mês. “Contudo, os ganhos podem ser muito superiores no mercado financeiro apenas com o bacharelado”, acrescenta. O benefício varia, evidentemente, de acordo com o setor de atuação do profissional e sua formação.

Os requisitos de carreira também diferem. Para trabalhar no mercado financeiro, por exemplo, o professor pontua que é preciso dominar o uso de ferramentas quantitativas – estatística e econometria – para ter desempenho de destaque. “Isso permite não apenas a tradução de números, mas a projeção de variáveis de interesse, como PIB, emprego, exportações e assim por diante.” Já daqueles que se dedicam a atividades de pesquisa, espera-se sólida formação acadêmica, especialmente no que diz respeito à parte teórica.

Seja qual for a escolha, a familiaridade em lidar não apenas com conceitos de estatística, mas com bases de informações, também se faz importante. Marcos explica: “Saber onde procurar dados quantitativos é um diferencial. O economista deve ter noção, por exemplo, sobre quem divulga o PIB, de que forma ele é computado e como acessá-lo”. O mesmo vale para pesquisas internacionais.

Outra característica que não pode faltar é o interesse. “Na verdade, o que diferencia um profissional de outro são a boa formação acadêmica e a curiosidade intelectual. Para aqueles que têm esses requisitos, não faltam opções de emprego”, afirma o professor André.

Perito em cenários

A partir de diferentes conjuntos de informações, o economista faz diagnósticos da situação do país e prevê possíveis resultados. Figura importante da nação, é capaz de interpretar cenários e apontar estratégias para reverter eventuais danos futuros. Graças à sua instrução teórica, um profissional da área compreende todo o contexto quando lhe dizem que o fraco desempenho da balança comercial está relacionado, em parte, à chamada conta petróleo, ou que a crise financeira internacional, ao diminuir as exportações brasileiras, também teve sua parcela de culpa.

Embora nem sempre o economista esteja diretamente envolvido com o processo de apuração desses dados, é ele quem monta a contabilidade social, ou seja, quem define os conceitos por trás de tudo. Também é ele quem se encarrega de analisar as questões históricas e de relacionar a balança comercial com a economia interna do Brasil a partir de suas observações técnicas.

Sem formação de qualidade, alguém não poderia dizer, por exemplo, que “2014 será atípico”, como afirma o professor Marcos. “Em época de eleições e Copa do Mundo, teremos um ‘ano morno’ em termos de mudanças de políticas econômicas”, prevê. “A partir de 2015 é que surgirão os grandes desafios de tentar dar credibilidade para que os investimentos aumentem verdadeiramente.”

Do mesmo modo, será preciso aumentar a produtividade. É o que explica André: “Na última década, a produtividade de nossa economia cresceu, em média, apenas 1% ao ano. Não é possível obter taxas de crescimento da economia de 4 a 5% com um desempenho assim”. Conhecedor do assunto, ele sugere “elevar significativamente os investimentos em infraestrutura e em educação de qualidade para tentar alterar esse quadro”.

Nenhuma dessas conclusões seria possível, porém, sem anos de estudos aplicados na área.

Perspectiva profissional

Se, por um lado, estamos “condenados” a crescer na faixa dos 2 a 2,5% ao ano em termos de perspectiva econômica da nação, conforme acredita André, por outro, é certo que teremos mercado para absorver os profissionais vindos da academia de diploma na mão. Ainda mais aqueles que seguirem o conselho do professor: “Um bom curso de graduação é suficiente, mas, para aprofundar o conhecimento, a pós é essencial”.

Ele destaca, ainda, que hoje existem várias opções de mestrado e doutorado em Economia na Região Sul do país e que, por isso, já não é preciso deixar o Estado à procura de formação de excelência na área, como ocorria há algumas décadas.

Tanto para aqueles que já se formaram quanto para quem ainda frequenta a universidade, vale lembrar: o que sobra ao economista em conhecimento de números falta em habilidade com palavras. “Fazer-se entender, tornar o técnico em palpável é uma necessidade”, frisa Marcos. Portanto, vale revisitar o português, ciência vizinha da matemática, em busca de uma linguagem, senão universal, ao menos compreensível a mentes leigas. Quem sabe assim a economia deixe de ser vista com receio e seja, enfim, considerada primeira opção.


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