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20/11/2013 · 14:07
Zumbi para além dos Palmares
Quilombolas recebem certificados de multiplicadores de conhecimento durante a semana da consciência negra
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Texto: Michelli Machado
Imagens: Rodrigo W. Blum

Se Zumbi pudesse hoje andar pelo Quilombo de Palmares, será que reconheceria o quintal da sua casa? Como eram os quilombos no século XVII, XVIII e XIX e como são essas áreas hoje? O que mudou? O quanto ainda temos para avançar?

O dia 20 de novembro é uma data para refletir, debater e propagar a história do grande herói, Zumbi dos Palmares, e de tantos outros negros que não tiverem seus nomes gravados na história, mas fizeram parte dela, pois lutaram por liberdade e justiça. Mais de um século se passou desde a abolição, e a luta por igualdade e respeito continua.



O Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (Neabi) da Unisinos, é uma referência nesse sentido. Nessa quarta-feira (19/11) entregou diplomas do curso de Inclusão Digital, aos quilombolas, que se especializaram para se tornar multiplicadores de conhecimento em suas comunidades. Igor Rodrigues, Paulo Ricardo Gomes, Daiane Lopes e Igor Bueno – estão agora qualificados para multiplicar o conhecimento digital nos quilombos, que ainda hoje são áreas afastadas e de difícil acesso. “É importante ver que aprendemos alguma coisa e que teremos a oportunidade de ajudar outras pessoas”, afirmou Rodrigues. Bueno diz que sabia muito pouco sobre informática, que aprendeu bastante e agora vai poder compartilhar esse conhecimento. Os depoimentos dos estudantes mostram a vontade de multiplicar saber faz parte da alegria de aprender sobre o mundo em rede.

A iniciativa de capacitar jovens dos quilombos Peixoto dos Botinhas e Cantão das Lombas, partiu do assistente social da prefeitura de Viamão, Jair Silva dos Angelos, que durante a cerimônia de entrega dos certificados destacou “Hoje temos certeza do dever cumprido”. O professor do projeto no Neabi, Cristiano Rafael Silveira, afirmou estar feliz com o resultado da iniciativa e que pretende oferecer novos cursos intensivos em 2014. Ao final da solenidade, uma canção trouxe o ritmo afro para a cerimônia. Sueli Angelita da Silva, também integrante do Neabi, convidou a todos a dançar e assim, em clima de comemoração, o momento foi encerrado.



Fugitivos e Libertos

A presidente da Associação do Quilombo Peixoto dos Botinhas, Edegi Maria Gomes, relatou a história dos dois quilombos, já que nasceu em um e casou com um morador do outro, logo, pertence aos dois lugares. O Quilombo Peixoto Botinhas, segundo Edegi, era composto por escravos fugitivos. Ela contou que esse foi o primeiro quilombo de Viamão e se formou na época dos navios negreiros. Sem precisar o período, disse que um navio chegou em um porto, provavelmente, Rio Grande e transferiu os escravos para uma embarcação menor, que veio pela Lagoa dos Patos. No desembarque, houve uma rebelião, uma guerra muito violenta, em que muitos morreram. Quem viveu, não foi por nenhum dia cativo, já que fundou o Quilombo Peixoto Botinhas, no alto de uma montanha, de onde tinham a visão dos arredores. A líder da revolva foi uma mulher chamada Pelônia, mostrando a força feminina, muito presente na luta contra a escravidão.  

O Quilombo Cantão das Lombas foi fundado após a abolição e era composto por homens livres. O fazendeiro Anápio Gomes da Silva após a abolição, não tinha o que fazer com os seus ex-escravos, por isso, resolveu dar um “cantão” no final de sua fazenda para eles e regitrou a todos com o seu sobrenome. O local foi separado do resto das terras por um valo, onde foi plantado maricá. Por muito tempo, o quilombo se chamou Cantão dos Valos, em função desse fato.

As áreas que compreendem os dois quilombos estão em regularização de posse, a fim de serem oficialmente entregues aos quilombolas.


Sobre Zumbi


Para entender melhor as questões que envolvem o dia 20 de novembro, a professora Adevanir Aparecida Pinheiro, coordenadora do Neabi, nos respondeu algumas perguntas sobre a importância da data para todos os brasileiros, independente da cor da pele, já que somos uma nação mestiça e multicultural.



JU: Qual a importância de Zumbi dos Palmares para a cultura brasileira e afrodescendente?
Adevanir Pinheiro: A importância do líder Zumbi dos Palmares é uma memória histórica de lutas e fortalecimento de todos os ativistas dos movimentos negros, ONGs, e organizações negras de todo país.  É uma data que marca uma história de muitas lutas pela libertação dos africanos e seus descendentes, uma liberdade que ainda exige muita visibilidade e respeito. Zumbi dos Palmares líder escravo era alagoano símbolo da resistência negra contra a escravidão, é o último chefe do Quilombo dos Palmares. Em 20 de novembro de 1695 foi morto Zumbi - o grande chefe da "primeira república verdadeiramente livre das Américas". Esses conhecimentos históricos sempre fortalecem as organizações negras brasileiras no sentido de não perder sua autoestima e condições de levar adiante a meta deixada por Zumbi.

JU: Qual a sua interpretação sobre os líderes de Palmares, Zumbi e Ganga Zumba?

Adevanir Pinheiro: Como maior parte da história negra no Brasil foi queimada, aparecem diversas interpretações sobre Zumbi e Ganga Zumba. Ambos foram líderes dos Palmares. Em termo de luta, houve muitas armadilhas e ciladas contras esses líderes negros. Ganga Zumba possivelmente pode ter caído nas armadilhas dos senhores de engenho e entregue o líder maior, que era o Zumbi. Minha interpretação é que existiam muitas armadilhas para exterminar as lideranças dos quilombos e isso era uma prática muito perversa dos senhores, seus capatazes e carrascos da época, que usavam de todas as maneiras para que os líderes negros fossem entregues e para isso usavam sim armadilhas, até mesmo usando o próprio negro e jogando um contra o outro.

JU: Desde quando se comemora o dia de Zumbi e a consciência negra?
Adevanir Pinheiro: Desde sua morte no dia 20 de novembro de 1695. Comemora-se, principalmente, o resgate da história negra no Brasil e a luta dos movimentos negros que passaram a se organizar a partir de então.

JU: Por que a história da resistência negra é tão pouco trabalhada pelo ensino de história tradicional?
Adevanir Pinheiro: Como os escravos e seus descendentes foram tratados como “coisa”, “peça” ou “objeto”, não havia interesse pelos mesmos, então sua história também não significava nada diante da história brasileira. Valiam enquanto davam retorno econômico através da mão de obra escrava. Quanto surge a abolição da escravatura, não tinham mais importância nenhuma para o país.

JU: Que ações o Neabi está fazendo especialmente por causa da data?

Adevanir Pinheiro: O Neabi vem desenvolvendo diversas ações práticas na universidade, além de dar inúmeras contribuições em termos de assessorias na cidade e nas escolas estaduais e municipais. Na Unisinos, além do Neabi, conta também com o Grupo Articulador de Inclusão Digital para os Afrodescendentes e o Projeto de Cidadania e Cultura, para as comunidades negras dos bairros do município e da região metropolitana de Porto Alegre.

JU: 20 de novembro é um dia de comemoração, debate ou reflexão histórica e cultural?
Adevanir Pinheiro: É um dia de reflexão, debate e apresentações reais da circularidade africana, uma herança deixada por nossos ancestrais. É dia também de fortalecimento e apresentações culturais voltadas para o resgate da memória e da cultura negra do país. Um ato que possibilita o resgate da autoestima e identidade da população negra, que cria de ações e oportunidades para quem ficou à margem da sociedade brasileira.

JU: Qual o significado da figura de Zumbi hoje?
Adevanir Pinheiro: Zumbi para toda população negra significa, força, luta resgate histórico e, sobretudo, a voz e a vez do povo negro contar essa história verdadeira sobre a dinâmica étnico racial e a diversidade deste país que foi construído pelas mãos de escravos e ex-escravos, por africanos e brasileiros.

JU: Como eram os quilombos no passado e como são essas áreas hoje?
Adevanir Pinheiro: No passado os quilombos eram o espaço de resistência dos quilombolas. Uma comunidade organizada pela luta e combate à escravidão brasileira. Hoje não é diferente, muitos negros quilombolas ainda lutam para serem reconhecidos em seus quilombos, obter uma estrutura legal de moradia quilombola. Muitos quilombos ainda não são reconhecidos de fato no Brasil, e isso precisa mudar. Ainda hoje há uma larga dificuldade em reconhecer a luta dos negros e dos quilombos, sobretudo, aqui no Rio Grande do Sul. Embora já haja algumas mudanças, ainda há muito o que fazer para diminuir a desigualdade racial no país.


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