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23/08/2013 · 16:27
Faleceu Padre Armando Marocco
Na tarde de ontem, (22/8), faleceu, em Fortaleza, CE, Armando Marocco, padre jesuíta, aos 91 anos de idade
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Texto: IHU online
Imagens: Divilgação


Armando Marocco, doutor em Psicologia de Orientação Vocacional pela Universidade de Montreal, Canadá, trabalhou de 1956 a 1971 no Colégio Anchieta, Porto Alegre. Por mais de duas décadas foi professor na Unisinos. Padre Marocco, de 1967 a 1971, foi um dos fundadores e primeiro presidente da antiga Fundação Estadual de Bem-Estar do Menor (FEBEM), a atual Fundação de Atendimento Socioeducativo (FASE).

Segundo ele mesmo narrava, na presidência da FEBEM, não fez "um trabalho meramente administrativo, mas manteve um contato pessoal com os adolescentes e jovens (geralmente pobres, drogados), visitava-os para conhecer sua realidade e atendê-los na medida do possível. A preocupação primeira era humanizar o ambiente; em vez de guardas da Brigada Militar, criou monitores sem armas. Sua estratégia era incutir valores, um novo jeito de viver que dispensa o uso de drogas. Como resultado da gestão na FEBEM, não houve motins”. Na semana passada, no dia 15 de agosto, celebrou os 60 anos de ordenação presbiteral.


O velório, acontecerá a partir das 10h deste sábado, 24/8, na Igreja da Ressurreição do Colégio Anchieta – Av. Nilo Peçanha, 1521, em Porto Alegre. A Missa de corpo presente será celebrada às 15h, no mesmo local, e o sepultamento do corpo será em São Leopoldo no cemitério dos jesuítas junto ao Santuário Sagrado Coração de Jesus (Pe. Reus).


Na edição no. 158, da revista IHU On-Line, de 3/10/2005, Padre Marocco concedeu uma entrevista narrando algo da sua trajetória de vida. Eis o relato.

“Sou alguém preocupado com a consciência de meus atos, de minhas palavras, com o que faço e com o que prego, sem me preocupar com prescrições e normas externas”. Para alguns, irreverente, para outros, coerente. Independentemente de adjetivos, temos aqui alguém comprometido e empenhado em conhecer a pessoa humana. Sua preocupação primeira sempre foi priorizar os valores e entender o motivo pelo qual a sociedade está produzindo, em número significativo, contravalores. Sua trajetória é permeada por trabalhos sociais que se preocupam em resgatar a dignidade de pessoas à margem de qualquer possibilidade positiva. Seu objetivo é promover uma consciência da libertação das dependências, inclusive químicas, construindo um ser humano mais autônomo, maduro e com sua identidade preservada.  Este é o padre Armando Marocco, até 2004 coordenador do Núcleo de Orientação Vocacional, na Unisinos.

Ele relata, a seguir, parte de sua trajetória ao longo de seus 83 anos de vida. 

Origens – Nasci em Guaíba, em 1922. Meu pai, Luiz e minha mãe, Antônia, vieram da Itália como imigrantes e receberam terras, tinham uma granja de arroz lá. Sou o sétimo filho e quando nasci, meu pai, preocupado com a educação de todos nós, mudou-se para Porto Alegre. Moramos no bairro Teresópolis. Cursei o ginásio no Colégio Anchieta e depois fiz um ano de pré-universitário em Direito. Já estava decidido a entrar na ordem dos jesuítas. Anteriormente, nunca quis ser padre.  Quando era criança ou adolescente nunca havia pensado nessa possibilidade. Quando comuniquei à família que seria padre meu pai sentiu muito. Ele estava feliz porque eu iria cursar Medicina. Nenhum dos meus irmãos cursou o ensino superior. Terminaram o primeiro grau – alguns, o segundo – e seguiram plantando arroz. Papai disse que se eles não quisessem estudar teriam de trabalhar. E eles abaixaram a cabeça e foram. Depois, meu pai e minha mãe foram compreendendo, e quando me ordenei padre, na Bélgica, em 1953, eles foram e ficaram muito honrados e satisfeitos.

Lembrança da infância – Lembro-me que quando morávamos na Avenida Teresópolis, 383, eu era um guri de seis ou sete anos que gostava muito de música. Dona Glorinha tocava órgão na igreja e eu fazia parte de um coral de meninos. Um dia me senti tão feliz que cheguei para ela, timidamente, e perguntei se gostaria de me ensinar a tocar piano. Aquele foi um momento de reestruturação da minha vida. Aprendi música e isso movimentou meus sentimentos. Hoje toco no piano peças de Beethoven, Chopin, Schumann, Tchaikovsky. Se hoje, depois de mais de 70 anos, for para o piano, tocarei a mesma coisa.  Preciso treinar um pouquinho, mas toco.

Vocação – Queria ser médico, porém, sempre me dediquei a causas sociais. Na escola, sempre organizava jogos, passeios e excursões e isso me envolveu com a juventude. Sabia que poderia fazer mais. Quando tinha uns 17 anos, fui assistir a um filme sobre a vida de Dom Bosco e fiquei empolgado com a obra que ele fez com menores de rua, abandonados e pobres. Decidi que era isso o que queria fazer e pensei: será que vou ter de ser padre como Dom Bosco? Jamais! Trabalhei essa idéia por algum tempo. Tinha uma namorada, queria me formar em Medicina, mas a idéia de trabalhar com essa juventude perdida me dominou. Lembro-me do dia em que tomei essa decisão. Estava em cima do viaduto da Rua Duque com a Borges de Medeiros, e aquela idéia não saia de minha cabeça, tinha de dar um jeito de desenvolver projetos sociais. Dei-me conta de que teria de seguir o sacerdócio. “Paciência! Vou ser padre!” Embora minha vocação tenha sido fortemente marcada por motivações sociais, e não sobrenaturais, já tenho 64 anos de vida religiosa e estou muito feliz.

Trajetória –
Durante minha vida nunca deixei meu propósito de lado. Fui diretor da Fundação do Bem Estar do Menor, antiga Febem, hoje Fase, durante o final da década de 1960 e início de 1970. Neste período não houve nenhuma rebelião, nenhum ato de delinqüência, não queimaram nenhum colchão. Não ficava no gabinete isolado e protegido por seguranças para não ser agredido. Passava horas, durante a noite, conversando com eles, porque esta é a minha vocação. Hoje, trabalho com jovens – os piores, rejeitados pela sociedade, delinqüentes e drogados – e com um grupo de gays. Eles têm muito a ensinar. Estou aprendendo a ser mais humano e menos materialista, mais dedicado e menos interessado em minha honra e em meu poder. É comum que as pessoas pensem: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Não dou importância a isso, digam o que quiserem. Não me denomino uma pessoa que trabalha com dependentes químicos. Trabalho com a pessoa em geral, com a qual a dependência das drogas existe. Estamos trabalhando na consciência da libertação das dependências, no sentido de ser um ser humano mais autônomo. Também trabalho em escolas com orientação profissional, empregando um método que descobri no Canadá quando fiz mestrado em Psicologia, entre 1975 e 1977, com dissertação sobre os valores educacionais e de trabalho, e o doutorado (Ph.D) em 1991, com tese sobre os interesses profissionais. Trouxe para o Brasil um método de orientação vocacional com caráter educativo. É um instrumento para desenvolver com maior clareza, com maior certeza o auto-conceito profissional.

Música – Toda a minha vida se estruturou num clima de arte musical. Quando trabalhei como estudante jesuíta, em Florianópolis, a primeira coisa que fiz foi montar um coral de alunos. Era um coral a quatro vozes. Também criei uma pequena orquestra. Eu tocava piano e tinha violino, violoncelo, contrabaixo, acordeon, flauta, bateria, clarinete. Tocávamos nas festas do colégio. Depois disso, deveria fazer meus estudos de Teologia, e nosso padre provincial me disse que eu faria Teologia na Bélgica. Perguntei o motivo e ele disse que era para eu estudar Música. Aperfeiçoei-me em direção coral em Regensburg, com os mestres dos Regensburger Domspatzen (pequenos cantores de Regensburg) – em minha opinião, os melhores. Lá, participei de apresentações e fiz estágios. Quando vim da Europa, em 1955, comecei como professor no Anchieta, e lá fundei um coral clássico. Cantávamos na Catedral, em diversas igrejas e em casamentos.

Horas livres – Se eu tivesse aqui um bom piano tocaria todos os dias. Toco órgão, mas nas horas de lazer, saio com meus jovens para nos sentarmos em um barzinho e tomarmos uma cerveja bem gelada, esquecendo-nos do tempo e das horas e rememorando alegrias...

Filme – Ao mestre com carinho, dirigido por James Clavell.

Autor e livro – Identidade, juventude e crise, de Erik Erikson. Trabalhei muito com esse autor e seus estudos sobre o desenvolvimento humano, que me ajudaram a criar uma base científica para a psicologia do desenvolvimento humano.

Metas – Quero ver montada uma organização não-governamental especializada em orientação de escolha de uma carreira para a vida como realização de uma personalidade. As escolas e universidades estão preocupadíssimas em ter os alunos bem aprovados nos exames que o MEC faz. Isso é uma inversão de valores. A escola ou a universidade tem de ser reconhecida pelo que desenvolve na pessoa do aluno através dos conhecimentos científicos. Não estou indo contra os conhecimentos científicos, mas, em primeiro lugar, a direção de uma escola ou universidade deveria investir na pessoa dos seus alunos, em sua dignidade, independentemente de qualquer objetivo financeiro.

Unisinos – Temos de oferecer coisas bonitas, claro. O pessoal aqui adora este campus porque tem um lago, tem verdura, tem patos, gansos, bancos para se sentar. Toda a atração externa é muito bacana, mas ainda não é o essencial de uma instituição educacional, que deve se dedicar prioritariamente ao desenvolvimento da pessoa humana. Em todas as aulas e matérias, todos os professores, tudo o que é ensinado aqui deveria ser transmitido de modo a desenvolver a auto-estima nos alunos e não o sentimento de rebaixamento diante da sabedoria do professor. Desenvolver a auto-realização, e não a realização do professor; desenvolver um clima afetivo de diálogo e não de imposições de cima para baixo; desenvolver a coragem nos alunos para que sintam vontade de crescer e não ter medo de enfrentar dificuldades. Digo isto como admirador das parábolas do Evangelho. A parábola do filho pródigo é um monumento de humanismo. Da mulher adúltera. Da ovelha perdida. Do festim de banquetes, que Ele sempre ensinava com uma parábola.


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