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24/01/2006 · 13:47
Falando a mesma língua
O leopoldense André dos Santos integra o grupo de brasileiros responsável pela reintrodução da língua portuguesa no Timor Leste
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Texto: Luciane Ramos


Mais do quetrabalhar em um país estrangeiro, André Rafael dos Santos tem nas mãos uma oportunidade única e de grande responsabilidade. Ele, que é graduado em Matemática pela Unisinos, onde também trabalhou durante 14 anos, foi escolhido entre 17 mil candidatos de todo o Brasil, para auxiliar na missão de reintroduzir a língua portuguesa no Timor Leste. O país asiático foi colônia portuguesa até 1975, quando foi invadido pelo exército da Indonésia. Desde então, a população foi proibida de falar português e o tétum passou a ser o idioma oficial. Com o auxílio da ONU, o Timor conquistou sua independência e agora busca reincorporar a língua portuguesa ao país. Porisso, 47 brasileiros trabalham no local. Entre eles, o leopoldense André. Apaixonado por livros, trabalhou no projeto de estruturação da atual biblioteca da Unisinos. Agora contribui com seu conhecimento e vontade de ajudar em uma pátria que começa a caminhar com as próprias pernas.

Com um mês de folga para visitar os familiares em São Leopoldo, André esteve na Unisinos para relatara experiência que tem vivido. Ele atua no Programa de Cooperaçãona Educação, no Timor Leste. As atividades são as mais diversas, desde a capacitação de professores timorenses para o ensino na língua portuguesa até a criação e reestruturação de bibliotecas. Essa última é a principal responsabilidade de André. \"O grande problema é que o ritmo deles é muito lento, a palavra-chave para os brasileiros lá é paciência\", revela, complementando que é difícil conseguir recursos para investir em educação. \"Na biblioteca da Universidade do Timor há apenas uma tomada, onde é ligada uma extensão para vários equipamentos, inclusive o único computador de lá. Às vezes, emprestam a extensão e ficamos sem computador, vê se pode?\", indigna-se.

Segundo André, apesar de ter conquistado a independência política, o país ainda é altamente dependente. \"O povo e o próprio governo não se dão conta do quanto precisam criar seus próprios subsídios. O país não tem uma única indústria, vive apenas do comércio e de doações internacionais\", afirma. \"Não vejo um trabalho do governo e da população nesse sentido\". O brasileiro observa, ainda, que houve uma queda nas doações internacionais devido à situação crítica em que se encontra o Haiti, para onde estão voltadas as preocupações internacionais atualmente. Outros problemas afligem o Timor. André confessa que ao desembarcar no país se surpreendeu com a falta de infra-estrutura, o esgoto a céu aberto, a precariedade no abastecimento de água, energia elétrica e alimentos.O calor também é insuportável. \"Outra coisa que me surpreendeu é a agressividade entre eles. Tudo acaba em briga, e isso é encarado naturalmente pela população\", diz André.

A adaptaçãoa uma cultura tão diferente não é fácil. O grupo de brasileiros é bem heterogêneo. Muitos já moraram em outros países e outros nunca haviam saído de sua cidade. \"Houve muitos problemas de depressão, saudade de casa e da família no grupo\". Para André, o problema é que alguns querem ter a vida que tem no Brasil, querem comer o que comiam em casa e ligar para a família todos os dias. Isso prejudicou muitos deles, que não agüentaram e estão retornando em fevereiro. \"Eu optei por viver o local e a cultura que o Timor oferece e isso só me engrandeceu\", diz ele, que só freqüenta as praias de timorenses, para conviver mais com eles. \"Eles adoram os brasileiros, nos tratam da melhor forma possível\". André credita esse comportamento devido aocarinho eà admiração que o povo tinha pelo diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Melo, que foi o titular da ONU durante a transição do Timor para um país independente, em 1999. Sérgio Vieira morreu em um atentado à sede da ONU em Bagdá, em 2003.

Além do carinho com os brasileiros, o que impressionou André positivamente foram as belezas naturais. \"O tanto de problemas que o país tem, tem denatureza espetacular, tanto de praias quanto de montanhas\". Aliás, essa é a diversão dos brasileiros, curtir as águas mornas e limpas das praias do Timor. E a saudade da família? É um problema, mas o gaúcho confessa que pior foi contar aos pais que integraria o grupo Programa de Cooperação. \"Meus pais souberam que eu iria para o Timor através do jornal. Eles estavam na praia e meu pai, que nunca lê jornais, naquela quinta-feira resolveu comprar um. Logo em seguida me ligou perguntando: \"Esse André, de São Leopoldo, que vai para o Timor Leste é tu?\"\", relembra. André revela não ter contado antes por não acreditar que chegaria tão longe.

Quantoàsituação atual do país, André avalia que a tendência é a de a educação melhorar com o tempo. \"Mas devagar, bem ao ritmo timorense\", complementa. Até o final do mês de janeiro, o Programa de Cooperação estará sendo revisto, para aumentar sua eficácia. O trabalho é desenvolvido em parceria com portugueses. \"Nosso português é muito diferente do de Portugal, deixamos a cabeça dos timorenses embaralhada, eles é que vão ter que criar seu próprio português\", afirma André, que retornou para as terras timorenses na terça (24/1).


Um pouco da história do Timor Leste

O Timor Leste foi colônia portuguesa até 1975, quando foi invadido pelo exército da Indonésia. Mas a população timorense, insatisfeita com o governo indonésio, em 30 de agosto de1999, foi às urnas para decidir seu futuro. Com 80% dos votos, a povo decidiu pela independência de seu país. Em resposta, grupos de milícias, apoiados por integrantes das forças armadas indonésias, espalharam o terror pelas ruas do país. Homens armados assassinavam as pessoas suspeitas de terem votado pela independência, ateavam fogo e destruíam prédios, casas e instituições. A violência só terminou com a intervenção das forças armadas das Nações Unidas.


Comentários

Telma de Castro Silva | 05/03/2006 | 10:19
Sou uma dentre os 47 professores brasileiros selecionados pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para atuar em Timor Leste e retornei ao Brasil em fevereiro, não porque “não agüentasse as saudades” ou por “depressão”. Sou uma profissional madura e séria o suficiente para me deslocar para o outro lado do planeta e voltar porque não podia comer feijão preto ou mesmo o absurdo de telefonar para a família todos os dias. Sou tão séria que, diferente de André e sabendo que, como bolsista da CAPES, não tinha direito a férias, fui obrigada a interromper meu trabalho em Timor e retornar para tratar do inventário de meu pai que faleceu enquanto eu lá me encontrava. Além do mais, não usei a oportunidade de trabalhar em Timor como uma solução para desemprego aqui no Brasil. Sou funcionária pública e, como a maioria dos 19 professores que retornaram, voltei para reassumir minhas funções como professora do Rio de Janeiro. Seria ótimo que todos tivessem na vida a possibilidade de “se engrandecer” e melhor seria se não quisessem fazê-lo à custa do demérito do trabalho alheio.
Guido | 05/03/2006 | 13:17
Realmente na condição de ex-membro da missão brasileira de cooperação internacional em Timor-Leste, tive que retornar em fevereiro, devido às obrigações funcionais com o Estado de SC. Mas aqui fica mesmo minha indignação, pois todos que retornaram realmente tiveram motivos próprios seja por trabalho ou pessoal e não por "terem ficado mais tempo ao telefone" ou "por não terem uma adaptação em relação a alimentação oriental", principalmente com a total falta de higiene de alguns locais aí em Timor. Convenhamos, comer no dedinho não é fácil para qualquer um!! Estresse e pessimismo é o que sentíamos todos os dias quando passávamos nas ruas e verificávamos a falta de consideração que o próprio governo timorense tem com o seu povo, por deixar que as condições de miséria se alastrem cada vez mais, sendo o governo consumido pela corrupção e pelas facilidades por ser considerado o país mais pobre do globo.

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