Às vésperas de embarcar para a Europa com o grupo de cerca de 150 universitários brasileiros selecionados pelo programa Top España, do Santander, o reitor da Unisinos, padre Marcelo Fernandes de Aquino, conversou com a reportagem do JU Online. Nesta sexta-feira (2/7), ele faz suas malas novamente e parte para mais uma viagem internacional, apenas duas semanas após ter regressado da Coreia do Sul, integrando a Missão do Governo do RS àquele país. Para a Unisinos, aliás, a Coreia já é familiar. Há quase dois anos, quando se iniciou o processo de criação da HT Micron, joint venture resultante da parceria entre a brasileira Altus e a sul-coreana Hana Micron, a universidade tem estado muito próxima do país do Extremo Oriente que é exemplo de desenvolvimento tecnológico para todo o mundo. O aprendizado com uma cultura tão diversa da brasileira tem sido muito rico, conforme padre Marcelo. Leia a íntegra da entrevista:
JU Online – Qual é a importância de estabelecermos relações com a Coreia do Sul?
Padre Marcelo Fernandes de Aquino – O grande ganho da recente Missão do Governo do Estado à Coreia do Sul – e, nesse aspecto, o mérito vai para a liderança do governador Tarso Genro e do presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, Paulo Tigre – foi o RS se sensibilizar para os novos parceiros asiáticos. As raízes coloniais gaúchas são fortemente europeias e, como vários outros países, após a 2ª Grande Guerra, fomos muito impactados pela influência dos Estados Unidos. Mas o século 21 está a nos exigir a percepção de que o mundo é outro. E ele inclui obrigatoriamente o Extremo Oriente.
Não faz muito tempo, até os anos 70 do século passado, a Coreia era um país pobre. Após a Segunda Guerra Mundial, viu-se envolvida na Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética, que resultou num conflito civil sangrento e na divisão do território em dois: Coreia do Norte e Coreia do Sul. Além disso, havia uma realidade impossível de mudar rapidamente: toda a região não possui commodities que seriam úteis numa política voltada para a exportação imediata. A Coreia do Norte, como ditadura, manteve-se isolada, até hoje com uma dificílima situação socioeconômica. Já a nação sul-coreana, estrategicamente, resolveu investir pesado em educação e, com o tempo, em produção e exportação de tecnologia. Tal saída mostrou-se decisiva para a realidade privilegiada de agora.
São visíveis, hoje, os sinais de que a Coreia do Sul é o que chamamos de sociedade do conhecimento, que sua economia é a da ciência. Lá existe até um Ministério do Conhecimento, demonstrando, com tal institucionalização, o quanto é sólida essa cultura. É claro que o Brasil não deve pretender importar simplesmente o modo de vida sul-coreano, sua filosofia, suas ações. Seria ingenuidade e nem desejável imaginar algo assim. Mas podemos nos inspirar em muito de seu comportamento e traçar rotas para também nos configurarmos como uma sociedade do conhecimento.
JU – E como a Unisinos descobriu essa tão bem articulada sociedade do conhecimento?
Padre Marcelo – Já há um ano, quando a Unisinos, como integrante da tríplice hélice que compõe o Parque Tecnológico São Leopoldo – Tecnosinos (governo + empresas + universidade), começou a interagir com a Coreia do Sul para possibilitar a formação da joint-venture HT Micron, passamos a conhecer a cultura de negócios oriental. Nesse sentido também têm sido cruciais o apoio do embaixador brasileiro na Coreia do Sul, Edmundo Fujita; de Daniel Fink, assessor de Ciência e Tecnologia da nossa Embaixada naquele país; e de mister Chang Ho Choi, presidente CEO da Hana Micron, esse último nos dando imprescindível respaldo teórico.
JU – Que características podem ser observadas na hora de se fazer negócio com a Coreia do Sul?
Padre Marcelo – Um comportamento muito típico dos negócios de nossos novos parceiros é sua extrema rigidez em gestão de custos. O empreendimento HT Micron, fruto da parceria entre a brasileira Altus e a sul-coreana Hana Micron, vai ter de se adequar àquele formato de gestão de custos, que é o da realidade globalizada. É que a cultura sul-coreana, como um todo, é a cultura do padrão. Já nós, brasileiros, não temos a característica do padrão como componente natural de nosso modo de ser. Então, será necessária agilidade na adaptação.
Outro grande diferencial dos negócios sul-coreanos é a exigência de que haja confiança entre os parceiros. Todos os passos, todo o processo da negociação, se baseiam nessa atitude de reciprocidade (nós confiamos em vocês, vocês confiam em nós) e tudo o que isso implica. É preciso extrema confiança nesse jogo que é muito transparente e honroso.
JU – E como a Hana Micron está nos vendo?
Padre Marcelo – No que se refere à confiança, também já há um ano, a Unisinos honra com o que é esperado da universidade e, por isso, sentimos o respeito dos sul-coreanos. Quatro professores – Guilherme Vaccaro, Carlos Moraes, Jacqueline Copetti e Jorge Barbosa, respectivamente dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia de Produção e Sistemas, Engenharia Civil, Engenharia Mecânica e Computação Aplicada – encontram-se naquele país em capacitação sobre semicondutores. A partir de agora, também estão recebendo conhecimento especializado o professor Eduardo Rhod, da graduação em Engenharia Elétrica, e o consultor Celso Renato Peter, do novíssimo Instituto de Semicondutores da Unisinos. Tudo para que a Unisinos, muito em breve, passe a ter competência em semicondutores, justamente o produto a ser desenvolvido pela HT Micron e que significará um avanço considerável para o Tecnosinos, para o RS e para o Brasil. O mundo irá nos ver de maneira diferente.
JU – Quais os próximos passos?
Padre Marcelo – Obviamente não vamos ficar por aí. Agora, mais uma vez fazendo jus à nossa natureza jesuíta de expandir fronteiras e de ir em busca de novas possibilidades para transformar a região em um espaço com melhores condições de vida e mais justo para todos, já estamos na China, com os pró-reitores Acadêmico e de Administração, padre Pedro Gilberto Gomes e João Zani, e também o diretor da Unidade de Educação Continuada, Francisco Zanini, e a diretora executiva do Tecnosinos, Susana Kakuta, integrando a Missão da Prefeitura Municipal de São Leopoldo àquele país. Padre Pedro, Zani, Zanini e Susana também irão a Hong Kong e, mais uma vez, à Coreia do Sul. Seu trabalho é de prospectar oportunidades para a Unisinos, por meio de parcerias dos mais variados formatos com universidades, governos e empresas. De fato, o Extremo Oriente nunca esteve tão próximo de nós.
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